As organizações e o círculo virtuoso
Fábio José Garcia dos Reis
Em conversas recentes com pessoas que são dirigentes de empresas e de IES, percebo que é recorrente a citação da expressão círculo virtuoso. Os dirigentes reconhecem que o sucesso de uma organização tem como origem um processo e um ambiente que geram o círculo virtuoso, que é criado por um conjunto de ações e atitudes de pessoas, em um contexto favorável.
Na literatura sobre ensino superior, gestores e intelectuais como Simon Schwartzman e Fábio Mesquiati (Brasil), José Joaquim Brunner (Chile), Cláudio Rama (Uruguai), Carmem Guadilha (Venezuela), Enrique Orozco (Colômbia), Philip Altbach, Liz Reisberg Michael James, Martin Carnoy, Burton Clark, Angélica Natera e Daniel Levy (Estados Unidos), Glen Jones, Barbara Bodkin (Canadá), Michael Shattock e Koen Lambarts (Inglaterra), Jose Joaquim Mira e Carlos Garulo (Espanha) e Yen Fagquiao (China) e Ka Ho Mok (Hong Kong) afirmam em seus livros e artigos que as IES que realmente querem realizar mudanças para tornarem-se instituições competitivas e sintonizadas com as melhores referências do ensino superior precisam ter pessoas preparadas, ambiente favorável que estimula o aprendizado, comprometimento, capacidade de planejamento, inovação, sustentabilidade e visão de futuro. Os últimos relatórios da UNESCO, da OECD e do Banco Mundial sobre ensino superior também vão no mesmo sentido.
Cito o nome dessas pessoas e das instituições não para ser o “chato de plantão”, mas para afirmar que há estudos realizados por gestores e intelectuais reconhecidos mundialmente, que servem de referência para os dirigentes de IES realizarem as mudanças institucionais. Aprendi com Cláudio de Moura Castro que a gestão se faz com evidências, parâmetros e resultados.
Participei recentemente, a convite da ABMES, de um workshop com mantenedores de 100 IES de pequeno e médio porte. Como um dos coordenadores do trabalho, foi possível perceber que, de modo geral, as IES carecem do círculo virtuoso, por isso, enfrentam dificuldades.
Como podemos criá-lo? Primeiro, é preciso entender que a essência da criação do círculo virtuoso está nas pessoas, em especial, nos líderes. A Revista Exame da segunda quinzena de março tem como reportagem de capa o tema da formação de talentos. Será a qualidade dos colaboradores e dos dirigentes, a capacidade de fazer as mudanças e corrigir as falhas e fragilidades, de enxergar o que está porvir, de instigar a inovação e de congregar as pessoas que determinarão o sucesso de uma organização. Aqui penso no estilo de liderança.
O segundo fator refere-se ao investimento na formação das pessoas. Uma organização não faz as mudanças se não contar com pessoas compromissadas e bem capacitadas e formadas. O investimento significa formar talentos em todos os setores da IES. O terceiro indica que as mudanças precisam estar alinhadas com as melhores referências do ensino superior. Somente com a clara percepção e conhecimento do ambiente em que atuamos, os líderes poderão fazer as inovações que são necessárias. O quarto fator remete-nos à necessidade de construir o relacionamento com o entorno e isso indica a necessidade permanente de manter contato com formadores de opinião, empregadores e organizações públicas e privadas. O quinto aspecto remete-nos à necessidade de clareza do planejamento, dos objetivos e das metas. Isso indica também a necessidade de olhar para o futuro e garantir a sustentabilidade. O sexto indica que a identidade, os valores e a ética são pilares da organização. Não existe prosperidade institucional onde a identidade não é vivenciada, os valores são meramente formais e a ética no relacionamento é deixada de lado. O sétimo elemento refere-se ao investimento em ações estratégicas. Não há prosperidade onde não há investimento em reflexão, infraestrutura, inovação e tecnologia.
Os elementos do círculo virtuoso indicados acima parecem ser fáceis e acessíveis a todas as IES. De fato, realmente os são, quando as IES, através de seus líderes, realmente decidem ser competitivas. É provável que todos nós tenhamos boas histórias e fatos que contribuíram para criar o círculo virtuoso. Aponto apenas sete fatores, entre outros, a partir de minha realidade em Lorena, onde sou um dos diretores da Unidade do UNISAL:
- uma pessoa da secretaria elaborou um projeto para qualificarmos o plano de dependências. A proposta diminui o tempo de integralizacão do curso e responde à demanda dos estudantes;
- a equipe financeira, por iniciativa própria, propõe, em diferentes momentos, formas de melhorar a captação e a sustentabilidade
- colaboradores da secretaria, do financeiro e do marketing elaboraram uma proposta para diminuir a evasão;
- em março de 2012 um grupo de professores da engenharia participaram de uma Missão Técnica em Harvard e MIT. Em 2013, um grupo de professores investiram na formação e participaram de uma Conferência em Salvador, promovida pela Expertise;
- em 2012 iniciamos um processo de inovação acadêmica, com a participação de 5 professores. Hoje são mais de 20 e somos referência no uso do Peer Instruction. Há um processo de formação dos professores. Estamos em sintonia com um grupo de pesquisa de Harvard, que trabalha com o tema da inovação acadêmica;
- todos os macroprojetos da Unidade são apresentados para gestores, colaboradores e todos podem opinar;
- foi criado um grupo para discutir a identidade institucional;
Essas são algumas iniciativas que fomentam o círculo virtuoso. Temos pessoas que demostram que a satisfação e a realização profissional e pessoal estão diretamente relacionados aos resultados da Unidade de Lorena. As atitudes dessas pessoas quebram modelos tradicionais de gestão e são constantemente incentivadas. Fomentamos atitudes empreendedoras. O Centro de Empreendedorismo que criamos no início do ano tem como uma de suas metas fomentar a cultura empreendedora em Lorena.
A literatura mundial demostra que os líderes que romperam paradigmas ou mesmo os que fizeram mudanças mais suaves e reformistas foram contestados e criticados. Entretanto, os exemplos acima indicam que é impossível criar o círculo virtuoso sem romper com paradigmas.
Apesar de todas as boas iniciativas apontada acima, é preciso evitar fatores que impedem a criação do círculo virtuoso: a burocracia, o desejo exagerado do controle, a incapacidade de entender o ambiente, os desafios e as tendências do ensino superior (o que gera atitudes e decisões equivocadas), a inveja e as intrigas institucionais.
Faço um pedido a todos os gestores inteligentes, profissionais e de bom senso que, por favor, façam tudo para combater os exageros da burocracia e do controle (uma necessidade para realizarmos objetivos, metas e resultados, mas um desejo permanente dos que olham o controle como uma forma de exercer o poder) e demitam os invejosos e aqueles que fazem intrigas institucionais. Essas pessoas são um perigo para a criação do círculo virtuoso.
Por outro lado, se há pessoas comprometidas, que trabalham em equipe, que estão focadas na eficiência dos custos e nos resultados e que sejam, acima de tudo, éticas, é preciso valorizar e criar mecanismos de valorização e retenção. Gestores, não tenham dúvida, os talentos são os responsáveis pelo sucesso da instituição.
Se queremos que nossas IES sejam competitivas é preciso mudar atitudes e repensar a cultura organizacional. O ambiente do ensino superior vai ser cruel com IES que não criarem um circulo virtuoso. Espero que comecemos a pensar em tudo isso e iniciemos as mudanças necessárias.
Instituto Expertise e a incidência e a relevância das IES de pequeno porte
Fábio José Garcia dos Reis
O Instituto Expertise tem entre os seus objetivos colaborar para o sistema de ensino superior do Brasil adquira parâmetros de qualidade compatíveis com os indicadores internacionais. É foco do Instituto contribuir com a formação dos gestores e fortalecer a competitividade das IES brasileiras.
Quando pensamos no sistema de ensino superior, é preciso considerar o papel das IES de pequeno porte. O Instituto, em conjunto com a ABMES elaborou uma proposta para fortalecer a competitividade dessas IES, que contribuem com o sistema educacional e são importantes em função do impacto social e econômico no local ou região que estão inseridas.
A educação é um setor de alto investimento e consumo, além de ser uma atividade que utiliza recursos sociais para conseguir objetivos sociais. O investimento do governo na educação foi de 5,8% do PIB em 2010. Com o novo Plano Nacional de Educação espera-se que o governo invista 10% do PIB. Os gastos públicos no ensino superior são de R$ 17,9 mil por aluno, por ano. Os gastos privados representam R$ 6,2 mil por aluno, por ano.
As IES investem seus recursos em contratação de pessoas, em livro, em infraestrutura, em eletricidade, em recursos didáticos, em informática, entre outros gastos. As IES são responsáveis pela contratação de pessoas que possuem conhecimento e formação adequada, além de formarem cidadãos e trabalhadores especializados. Há uma taxa de retorno dos investimentos em educação realizados pelos governos federal, estadual, municipal ou pelo mantenedor de IES de iniciativa privada. As taxas de retorno são maiores quando o Estado institui públicas eficientes e permitem a dinâmica dos sistemas de educação.
O setor do ensino superior de iniciativa privada do Brasil representa 1% do PIB. Pesquisa realizada pelo SEMESP demonstra que 86% dos empregados nas empresas são egressos das IES de iniciativa privada. As empresas têm contratado egressos de IES privadas. Os economistas demonstram que uma pessoa com ensino superior tem em média um salário 55% maior que os que não possuem ensino superior.
As IES de pequeno porte exercem um papel relevante na economia da educação. Exercem também um papel estratégico de formação e de dinâmica local e regional, em função da inserção social.
A consolidação do sistema de ensino superior deve-se intensificar nos próximos anos, mas cabe às associações representativas apontar o caminho para as IES de pequeno porte e contribuir para que essas IES sejam competitivas.
Espera-se que o governo brasileiro crie mecanismos de incentivo para as IES de pequeno porte, assim como, criou para as micros e pequenas empresas. O Instituto Expertise espera contribuir os mantenedores dessas IES, pois reconhece o papel relevante e a representatividade dessas instituições.
O efeito devastador das panelas de pressão lá e cá…
Por Gabriel Mario Rodrigues
Presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)
Secretário Executivo do Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular
É necessário que cada tipo de instituição assuma a responsabilidade de ser o que o realmente é; que seja reconhecida e tratada como tal, sem tabus nem subterfúgios e que a diversidade seja admitida como algo útil, necessário, e na realidade inseparável de uma ordem política realmente democrática e pluralista. (Simon Schwartzmann, 1983.)
O Massachusetts Institute of Technology (MTI) está entre as cinco melhores escolas do mundo. Possui uma reputação tremenda. O aluno mais fraquinho da turma sai da instituição habilitado a prestar concurso para ser astronauta. Brasileiros ilustres estudaram lá e não me deixam mentir sobre esta constatação.
Foi no campus do MIT – que tem status de universidade, mas é uma faculdade – que na madrugada do último 19 de abril houve um tiroteio entre policiais e os suspeitos pelo atentado a bomba na linha de chegada da maratona de Boston. Eles foram identificados como dois irmãos oriundos das montanhas do Cáucaso. O mais velho, Tamerlan Tsarnaev, 26 anos, foi morto durante a perseguição na madrugada. O mais novo, Dzhokhar Tsarnaev, 19 anos, foi ferido e encontra-se hospitalizado. Ironia: ambos ganharam bolsas de estudos no valor de US$ 2,5 mil cada da cidade de Cambridge, Massachusetts.
O ser humano é complicado e vai entender o que estava na cabeça dos suspeitos para atingir maratonistas que nada tinham a ver com as complicações políticas (religiosas) mundiais.
Duas prosaicas panelas de pressão, convertidas em bombas, mataram um menino de oito anos, uma jovem americana de 29 anos e uma estudante chinesa, e ainda vitimaram mais de 130 pessoas muitas feridas gravemente.
Aqui, a nove mil quilômetros de distância, ainda repercute o Seminário Tendências e Oportunidades para Pequenas e Médias Instituições de Ensino Superior – as PMIES, realizado em 9 de abril último, na sede da Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior (ABMES), em Brasília, ocasião em foram discutidos os problemas e as dificuldades de tais instituições contexto da educação brasileira.
As PMIES deveriam receber tratamento diferenciado das instituições de ensino superior (IES) de grande porte. Espraiadas pelo interior deste Brasil, onde as condições de estudos secundários carecem de um olhar mais atento por parte do MEC, as PMIES deveriam receber uma avaliação de curso de acordo com o contexto no qual se situam, e não como se fossem universidades instaladas nos grandes centros. Com base no modelo de avaliação externa do Ministério da Educação (MEC), as PMIES podem ser consideradas instituições insuficientes e receber conceito 1 ou 2, “por não cumprirem as exigências de formação do professor, que devem ser mestres ou doutores, e de dedicação mínima de 20 horas semanais dos docentes”. Será que ninguém enxergou ainda que o percentual de mestres e doutores é perfeitamente questionável para o aprendizado prático?
A propósito, Marcos Antônio de Lima, diretor e mantenedor da Faculdade de Tecnologia de Piracicaba (Fatep), afirmou categoricamente durante o seminário que a fábrica de automóveis Hyundai, situada na área da cidade de Piracicaba, emprega um grande número de estudantes: “para mim seria melhor contratar professores especialistas que tenham contato diário com o chão de fábrica, ainda que sem títulos acadêmicos. Mas, para obter uma boa avaliação, tenho que ceder em alguns pontos.”
Outra demanda das PMIES é uma maior participação no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Endividadas, sem a Certidão Negativa de Crédito (CND) e com conceito insuficiente no processo de avaliação, as PMIES não podem indicar alunos para o financiamento. Segundo os atuais critérios, sem nota “3” nada feito, nada de Fies. A concessão do financiamento tornaria as PMIES mais atrativas e disputadas pelo mercado. “Temos que enfrentar o poder e a força política e econômica dos grandes grupos.”, argumenta Célia Christina Silva Carvalho, diretora acadêmica da Faculdade Nobre de Feira de Santana/BA.
Os participantes do Seminário foram unânimes em afirmar que se, por um lado, podem se relacionar e tratar melhor seus alunos e até mesmo conhecê-los pelo nome, por outro, não podem concorrer em igualdade de condições por não poderem oferecer o Fies.
As PMIES localizadas em municípios pequenos e regiões carentes – que são a maioria do sistema federal de ensino – têm sido penalizadas, segundo depoimentos dos participantes do seminário, com cortes de vagas, arquivamento de processos de cursos em tramitação, fechamento de cursos e outras medidas, tendo em vista os critérios equivocados de avaliação do MEC, que não levam em conta a diversidade cultural dessas regiões. Por ser uma questão tão lógica, a diferenciação regional brasileira para o tratamento diverso das instituições está prevista na lei que criou o Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (Sinaes).
É praticamente impossível que uma PMIES localizada em uma cidade pequena, possa oferecer o mesmíssimo padrão de ensino de uma universidade de grande porte de cidade grande – comparando aqui as IES localizadas em estados diferentes, mas pertencentes à mesma região socioeconômica. Aqui mora o foco da pressão exercida sobre as PMIES. Uma verdadeira panela de pressão que, a continuar assim, mesmo que em fogo brando, poderá explodir um dia e provocar um desastre de grandes dimensões tal como aconteceu em Boston: mandar pelos ares cerca de 71% do sistema educacional brasileiro.
Para evitar esse colapso, o MEC, deveria ter sensibilidade para perceber o que ocorre no sistema educacional brasileiro e reconhecer que a fórmula simples citada por Simon em 1983, ao tratar da heterogeneidade do sistema educacional brasileiro, “é útil, necessária e inseparável de uma ordem política realmente democrática e pluralista”. Em outras palavras, as PMIES pedem a adequação das avaliações do MEC ao contexto em que estão inseridas e de acordo com a sua tipologia. Só isso.
Apesar das dificuldades e obstáculos, bem ou mal, ainda que aos trancos e barrancos, as PMIES contribuem para o desenvolvimento acadêmico das populações, melhoram o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) locais, empregam profissionais e professores e movimentam economias do nosso País real.
Brazil’s Multi-Billion Dollar Education Industry: Shaping Futures, Changing Lives, and Minting Billionaires
Ricardo Geromel, Contributor
Post co-written with Luke Barbara, an American entrepreneur based in São Paulo, Brazil.
Brazil’s role as a global superpower is on an upward trajectory and the country will make numerous important contributions to the world in the 21st century. Many of these contributions will come from, and almost all will be connected to, a sector that gets little attention in mainstream media – academia.
So much attention is focused on the Brazilian government’s domestic and foreign policies, home-grown businesses such as Embraer andPetrobras , and the global mega events including the 2014 Soccer World Cup and the 2016 Olympics Games. Many people outside of academic circles have never heard about Brazil’s universities and the important role they play in the country’s success story through education, thought leadership, and technological innovation.
It is important for all business leaders and global influencers with a desire to understand Brazil to familiarize themselves with Brazilian academia’s higher education institutions. Opposite to the United States, most of the top universities in Brazil are public and offer free tuition to those who pass their rigorous and highly competitive entrance examinations. The University of São Paulo (USP) is consistently ranked as the top university in Latin America byU.S. News & World Report and the other two state universities in São Paulo, UNESP and UNICAMP, are also academic powerhouses with global distinction.
Top Brazilian higher education institutions have strong interplay with government, corporations, and technology creation. The epitome of successful collaboration between academia, government, and business is the relationship between the Technological Institute of Aeronautics (ITA) and aircraft manufacturer Embraer.
In the 1950s, the Brazilian government embarked on an ambitious mission to build a national aviation industry. The government commissioned the creation of ITA along with the Brazilian General Command for Aerospace Technology (CTA), which is tantamount to the Federal Aviation Administration (FAA) in the USA. The powerful combination of ITA as a technology-focused university and the government agency CTA successfully gave rise to the formerly state-owned Embraer, which has since been privatized. Today, Embraer is a $6 billion highly successful global aviation company and ITA is dubbed by many as the “MIT of Brazil.”
Brazil’s academic prowess extends beyond aviation technology into many diverse areas. It should come as no surprise that business is one of the main areas. Globally recognized Brazilian business schools include Fundação Getulio Vargas (FGV), Fundação Dom Cabral, and USP’s FEA. Increasingly, Brazilian professionals are passing up the opportunity for a foreign MBA to instead attend business school in their own country.
Academia is fueled by the exchange of knowledge and collaboration between researchers, students, and institutions. Brazilian academic institutions have long-standing partnerships with top universities around the world and new initiatives are launching with increasing frequency. Brazilian academia needs the knowledge, talent, and pollination of ideas from other institutions and researchers around the world. Mutually, it contributes in this exchange by sharing Brazil’s creativity, innovation, and thought leadership with rest of the globe.
Recognizing the increasing importance of Brazil, foreign higher education institutions are rushing to establish themselves more firmly in Brazilian soil. Some of these are building on longstanding involvement in the country and others are making their first foray into Brazil. Harvard’s David Rockefeller Center for Latin American Studies has established an office in the São Paulo metropolis and the University of Southern California recently launched a Trojan Outpost focused on recruiting Brazilian students.
A notable longstanding collaboration between Brazilian and American higher education institutions is the 49 year history of partnership, research collaboration, and student exchange between USP’s Luiz de Queiroz College of Agriculture (ESALQ/USP) and The Ohio State University (OSU) focused primarily on agricultural sciences and technologies. A unique aspect of this collaboration is a Brazil-USA dual doctoral Ph.D. degree program in the area of Translational Plant Sciences, which is a tripartite collaboration between ESALQ/USP, OSU, and Rutgers University.
Furthermore, Ohio State’s President Gordon E. Gee was recently in Brazil in anticipation of the 2014 launch of the OSU Global Gateway Brazil. His visit included the renewal of a long-standing collaboration agreement between USP and Ohio State, the launch of a $1.4 million fund in collaboration with the State of São Paulo’s research agency FAPESP, and meetings to foster new partnerships with Brazilian academic, corporate, and governmental institutions in diverse focus areas ranging from advanced manufacturing to social sciences to genetics to agriculture. The Ohio State University Global Gateway Brazil will serve as an academic embassy with four pillars of focus; increasing two-way exchange of students, connecting alumni to each other and the university, fostering academic research collaborations, and partnering with companies for research and talent development.
Higher education is also big business in itself. According to The Economist, only 10% of the universities in Brazil are offering free tuition for very limited and highly sought after spots. This created a market opportunity that entrepreneurs answered and grew into a multi-billion dollar industry for private higher education institutions focused, not on academic research, rather on providing a college education to the increasing number of degree-seeking students.
In April, Brazil’s two largest private tertiary education companies announced a merger to create the world’s biggest for-profit operator by market capitalization, valued at about $6 billion, with 1 million students. Kroton Educacional, part-owned by US-based private equity Advent International, will pay $2.48B for rival Anhanguera Educacional Participacoes, part controlled by BlackRock from the US. The deal demonstrates the highly lucrative potential of private higher education and is set to enrichen the dealmakers.
Educational business opportunities extend beyond private higher education into areas such as language schools and test preparation. Earlier this year, Abril Educação, majority-owned by Brazilian billionaire Roberto Civita, agreed to pay about $440M for Wise Up, an English language school group. In 2012, HIG Capital and Actis also invested in other language schools in the country. Entrepreneurs Claudio Sassaki and Eduardo Bontempo left their investment banking careers to found Geekie, a company focused on personalized learning and preparation for Brazil’s rigorous ENEM university entrance exam. Geekie recently raised growth capital from Fundo Virtuose, owned by the Brazilian billionaire family Gradin.
Brazil severely needs to improve its educational ecosystem to meet the skill, knowledge, and innovation requirements of a country striving to improve the quality of life for all of its citizens and to climb higher on the world stage. This mammoth challenge will require a combination of public, private, and combined collaborative initiatives. Some entrepreneurs and investors are betting heavily that Brazil’s emerging middle class will be willing to open their wallets to invest in their future through education and training. These risk-takers know something that will be taught in the business classes in their universities: the best way to become wealthy is to find a real, urgent, and large-scale need and to provide accessible, effective and competitive solution(s).
One emerging example is that of UniBr, which has over 10,000 students and controls 14 institutions, mainly in small towns located nearby São Paulo, Brazil’s financial capital. UniBr appears small compared to the mega-sized leading education groups, but it’s showing promising growth in a consolidated sector. Paulo Cesso, UniBr’s director, noted that “less than 15% of the Brazilian population aged 18 to 24 is enrolled in universities, compared to greater than 36% in the US.”
Opportunity and necessity are calling and diverse parties including Brazilian public universities, foreign academic institutions, and education entrepreneurs are all answering the call and playing their part in transforming Brazil through education.
World politics, business leadership, energy production, and food security are just a few of the many areas where Brazil will not only contribute but probably also lead globally in the 21st century. Global influencers and business leaders should understand the importance of Brazilian academia and actively engage with the higher education institutions that are creating the ideas, technologies, and leaders who will shape Brazil and thus the world.
Texto retirado do site da Forbes
Por que fazer o curso de Gestão Universitária do UNISAL-SEMESP
Fábio José Garcia dos Reis
A revista Ensino Superior já fez várias reportagens sobre a carência de gestores de IES no Brasil. Há carência de gestores que possam atender o perfil e as expectativas das IES. O ambiente do ensino superior é competitivo, complexo, dinâmico e cada vez mais global. O que as IES esperam de um gestor em um ambiente como esse? Qual o perfil? O que o gestor precisa saber e fazer para estar qualificado? São essas e outras perguntas que o curso de gestão universitária quer ajudar as pessoas que optam por fazer o curso a responderem.
O curso conta com professores que são gestores em suas IES. Há também executivos com experiência em gestão do ensino superior. Ao consultarem o link www.unisal.br/posgraduação as pessoas interessadas poderão conhecer o perfil dos professores e constatar que o diferencial do curso é o seu corpo docente e o enfoque da formação.
O curso não forma o gestor com um perfil acadêmico ou administrativo. O curso forma o gestor com visão sistêmica. Ao terminar o curso, o aluno será capaz de analisar a IES de forma global. O curso oferece disciplinas de gestão acadêmica (graduação, pesquisa e extensão, avaliação MEC), administrativa (planejamento, gestão de pessoas, análise de informações, gestão da qualidade) e financeira (planilhas e orçamento), além de disciplinas de enfoque global (internacionalização e tendências).
O curso tem foco internacional, ao proporcionar um seminário anual em instituições de ensino de relevância mundial. Sempre buscamos os melhores parâmetros de gestão. Há um módulo online, em parceria com professores espanhóis, que são especialistas em gestão universitária.
Em 2006, realizamos a primeira viagem internacional ao Chile. Em 2007, fomos para a Espanha, em 2008, para o México, em 2009, para os Estados Unidos, em 2010, para a França e Inglaterra, em 2011, para a China, em 2012, para o Canadá e para os Estados Unidos. No planejamento de 2013, o seminário será na Dinamarca e na Alemanha.
A primeira turma do curso, em Lorena, é de 2006. Depois, o curso foi para Campinas, em 2008. Agora, a turma 2013 será iniciada em São Paulo, no Campi Pio XI, do UNISAL. A opção pelo rodízio é estratégica. O objetivo é facilitar o acesso das pessoas de diferentes IES e cidades.
Várias pessoas que terminaram o curso foram promovidas na IES ou receberam aumento salarial. O curso possibilita network com os nossos professores, que são gestores de IES relevantes no Brasil, e network entre os próprios estudantes, que trocam experiência e conhecimento.
O curso é recomendado para professores, gestores e profissionais que atuam no ensino superior e que querem adquirir conhecimento e experiência e que almejam estar preparados para ocupar novos desafios na instituição que atuam ou buscar novos desafios.
É fato que as IES querem contratar pessoas capacitadas e inovadoras, que conheçam o ambiente do ensino superior, a dinâmica de uma IES e que possam trazer resultados acadêmicos e administrativos. Faço o convite para que se inscrevam no curso de Gestão Universitária do UNISAL-SEMESP, no site www.unisal.br/posgraduação
Como podemos fazer inovações na IES?
Fábio José Garcia dos Reis
O livro “The Innovative University”, de Clayton M. Christesen e Henry J. Eyring é um boa referência de leitura para os gestores de IES interessados em implementarem inovações em suas instituições. Eles tratam de um tema que não é novo no Brasil: reinvenção e inovação na IES. A proposta dos autores é apresentar os caminhos para a mudança de DNA de uma IES. É utilizado como referência a Brigham Young University – Idaho. A universidade foi criada no ano 2000, a partir do Ricks College. O foco do texto será a mudança do DNA, não o case da universidade.
Os autores iniciam o livro com a análise do ambiente da educação superior. Eles reconhecem que o momento é de “disruption”, ou seja, de ruptura com os velhos paradigmas. Esse é o primeiro tema que indico para a reflexão: reconhecemos que a dinâmica da educação superior rompeu com os velhos paradigmas? Temos consciência da “disruption”?
Para os autores, a ruptura acontece em diferentes frentes, como por exemplo, no estilo de governo e gestão, no modelo de ensino e aprendizagem, na forma como realizamos o nosso trabalho cotidiano, em função das novas tecnologias e meios comunicação, na forma como como nos relacionamos com os alunos que estão interessados em experiências diferentes e possuem demandas que nem sempre entendemos ou estamos atentos.
A ruptura exige posturas e decisões diferenciadas dos gestores, requer uma reorganização da IES. Os autores escrevem sobre uma nova engenharia na organização, no planejamento e na atitude das pessoas. As mudanças tendem a contribuir para um novo DNA, ou mesmo, o fortalecimento do DNA existente.
O DNA é entendido como a identidade da IES, como aquilo que caracteriza a instituição. É a forma como a sociedade enxerga a IES. A IES bem organizada e definida em sua identidade, governo, gestão, cultura, programas e estilo acadêmico constrói uma imagem perante a sociedade e tem um DNA estruturado. A imagem não pode ser o reflexo do desejo, mas sim, de ações e resultados concretos. Indico um segundo tema para a reflexão: sabemos definir o DNA da IES em que trabalhamos? Qual é o DNA da nossa IES? O DNA não pode ser confundido com “planejamento no papel” e “pios desejos”.
Um DNA se constrói com pessoas comprometidas. Para os autores, a definição de um DNA é fruto de uma ambição coletiva. Requer um alto nível de engajamento institucional. O compromisso e o engajamento devem ser de todos os setores, especialmente, os estratégicos. Não se pode admitir um governo de IES sem rumo ou formado por pessoas que não tomam decisões coletivas ou que não colocam em prática estratégias coletivas. Os líderes são referência e inspiração institucional. Os autores argumentam que a prioridade para as organizações é saber quem está comprometido e não saber para onde a instituição vai ou aonde se quer chegar.
A preocupação com o quem, passa pela composição do time de gestores e, especialmente, dos professores. Em um contexto de ruptura, ter um corpo docente pouco interessado no uso das novas metodologias de ensino ou no uso da tecnologia é um problema sério. Os autores escrevem sobre o perigo de quem está “fora do ônibus”. Estar fora do ônibus significa não estar comprometido com as mudanças ou com as perspectivas institucionais. São pessoas que estarão pisando no freio e podem atrasar ou colocar-se em uma posição contrária às mudanças em curso.
A liberdade da academia tem seu limite no projeto e nas decisões institucionais. Não se pode imaginar um modelo de governo de IES nos mesmos moldes que marcou a origem das universidades ou as reivindicações da Reforma de Córdoba de 1918, em que a autonomia universitária era uma das bandeiras. Um dos perigos para a mudança do DNA é o corporativismo acadêmico.
Para Christensen e Eyring, uma IES sem rumo, sem perspectivas de mudanças ou com crise de poder tende a ser obsoleta, desorientada e despersonalizada. Uma IES obsoleta não terá lugar no século XXI, em função da dinâmica do ensino superior. A desorientação representa a fragmentação, a “esquizofrenia institucional”, a incapacidade de realizar o planejamento e inspirar as pessoas. A despersonalização indica que a IES não tem imagem percebida, não consegue comunicar o que é e o que quer. É uma IES que não conseguiu agregar valor. O terceiro tema para a reflexão refere-se ao time de governo e gestão: a IES tem um time comprometido? Há pessoas certas no lugar certo? A IES tem orientação bem definida de curto, médio e longo prazo?
As pessoas certas e comprometidas podem realizar um planejamento que permita a IES fazer mais e melhor sem aumentar custos de forma exorbitante. É preciso definir as prioridades. O planejamento deve respeitar o DNA institucional e ser elaborado a partir da análise do ambiente da educação superior. Os autores escrevem sobre a necessidade de se pensar no custo eficiente, na taxa de retorno e nos projetos que são o foco da instituição. Os autores fazem uma reflexão sobre o “valor do dinheiro”. A questão não é deixar de investir no que é foco e prioridade institucional, é saber investir.
O livro apresenta cases em que nas situações de crise, os gestores da IES decidiram investir no que ela tem de melhor ou em inovações, como no caso de Babson College. Algumas perguntas sempre precisam ser respondidas: o investimento está alinhado com as prioridades? Qual será o retorno para a instituição? Os autores apresentam uma série de sugestões de informações que precisam ser mensuradas para que a IES realmente tenha um custo eficiente. Eles fazem referência a um reflexão de Michael Porter, em que a essência da estratégia é escolher em que não investir. Um quarto tema para o debate refere-se à atitude de gestão: planejamos e medimos? Qual a eficiência do planejamento?
Os autores defendem que o uso da tecnologia na IES e nas práticas de ensino e aprendizagem é um requisito inerente à dinâmica do século XXI. A IES não conseguirá responder às demandas dos estudantes se não utilizar as tecnologias. A recomendação do livro é a aplicação de um modelo que contemple ensino presencial e online, desde que seja estruturado e permita a interação.
Há uma situação interessante no livro. O presidente da Brigham Young University – Idaho e seu conselho optaram por investir menos no time de futebol americano da universidade e mais em tecnologia e aprendizagem. Esse é um exemplo claro de opção estratégica. A IES quer se diferenciar pelo uso da tecnologia (houve um aumento considerável de estudantes matriculados em cursos online) e pelo modelo de ensino-aprendizagem.
A pergunta que eles tiveram de responder: queremos um time vencedor ou alunos que tenham as habilidades que os empregadores exigem, com custos de anuidades acessíveis? A opção foi pelo investimento em formação por habilidades, pelo uso da novas metodologias, pelo acompanhamento das demandas dos estudantes, com custos acessíveis. É obvio que a instituição não deixou de ter um time de futebol. A intensificação do uso da tecnologia foi acompanhada pela mudança na concepção de ensino e um amplo diálogo e formação dos professores.
Privilegiou-se um modelo que instigue a integração entre as áreas do conhecimento, a interação entre ensino presencial e online, a participação ativa dos estudantes, a aprendizagem cognitiva, a orientação dos estudantes para a aprendizagem, o trabalho coletivo (os professores são orientadores) e a experimentação, entre outras inovações. A universidade de Idaho declara que é seu foco cuidar dos estudantes. Há interesse real em saber o que eles pensam.
No Brasil, há gestores que reconhecem que é preciso implementar inovações acadêmicas. Há iniciativas de inovação metodológica, mas de modo geral, muitos estão sem saber como aplicar ou implementar as inovações. Muitos não sabem como fazer ou qual é a melhor metodologia de ensino. Há gestores que enfrentam resistências acadêmicas. A questão não é saber qual a melhor inovação. Os autores do livro deixam claro que a imitação é o pior caminho.
Cabe aos gestores conhecerem as opções e as metodologias e optar pelas que oferecem, a partir da realidade institucional, a melhor integração, aplicação e prática de ensino e aprendizagem. O caso da universidade de Idaho demonstra que a implementação de um novo desenho de currículo trouxe benefícios para a formação dos estudantes. O quinto tema de reflexão refere-se ao modelo de ensino-aprendizagem e currículo. Como gestores, nós acreditamos que é preciso realizar mudanças no modelo acadêmico? Se acreditamos, o que fizemos até o momento e o que estamos planejando para os próximos dois ou três anos?
O sucesso da IES passa necessariamente pelo desenho da organização institucional. Somos instituições com uma alta capacidade de aprendizado. A nossa competitividade no ambiente em que atuamos está diretamente vinculada a algumas decisões: a) escolher bem o time de governo e gestão e investir nas pessoas que podem manter o DNA ou modificar fazer as modificações necessárias, se for preciso (pessoas que podem assumir o projeto no futuro); b) conhecer o ambiente da educação superior e tornar a instituição competitiva em um ambiente dinâmico, global e caracterizado pela economia do conhecimento, que exige inovação; c) definir as estratégias e olhar permanentemente para a eficiência dos custos e para os indicadores; d) ser capaz de promover a inovação acadêmica (no sentido amplo) e escolher e capacitar os professores; e) cuidar da formação e das demandas dos estudantes; f) utilizar a tecnologia na gestão e na dinâmica acadêmica da IES.
Os autores do livro estão corretos. Em um ambiente de “disruption”, cabe aos gestores de IES realizarem as mudanças necessárias e se for o caso modificar o DNA. De toda forma, a inovação e o alinhamento com a dinâmica e demandas do século XXI, sem perder a identidade, são componentes inerentes à manutenção da competitividade institucional. O sexto e último tema para a reflexão é: a IES é competitiva e corresponde aos desafios do ambiente contemporâneo do ensino superior? Precisamos ou estamos dispostos a fazer inovações na IES? Sabemos quais são as inovações necessárias?
Recomendo a leitura do livro “The Innovative University”. Ser responsável pelo governo ou gestão de uma IES é assumir a responsabilidade de fazer as rupturas que são necessárias, no momento correto. Postergar as mudanças pode representar aumento de custo, perda de competitividade. Não fazer as inovações necessárias significa tornar a instituição obsoleta. Não ter visão de futuro é contribuir com a desorientação e despersonalização da IES. Nossos gestores erram ao fazer “o mais do mesmo”.
Espero que os leitores pensem nas questões para debate indicadas acima. Efetivamente, precisamos contribuir para a prosperidade de nossas IES e para a melhoria do sistema de ensino superior do Brasil.
Líderes que olham para o futuro versus crise de liderança
Fábio José Garcia dos Reis
Já escrevi sobre o tema, mas a minha inquietude em relação ao perfil dos líderes que atuam nas IES motivou a nova reflexão. No ambiente do ensino superior, os debates sobre perfil de liderança intensificaram-se nos últimos anos. O SEMESP, desde o ano passado, tem provocado discussões sobre o tema. A expansão do sistema, a complexidade e o dinamismo exigem novas posturas dos líderes de IES. É bem provável que as IES lideradas por pessoas que não conhecem a dinâmica do sistema de ensino superior estejam com diversos tipos de problemas de gestão. Por outro lado, IES que possuem pessoas que reúnem as características contemporâneas da liderança tendem a obter sucesso.
Em um ambiente dinâmico e complexo, uma das características relevantes dos líderes é a sua capacidade de olhar o futuro e antecipar-se com planejamento e propostas que tenham impacto acadêmico e administrativo na IES. Para que servem os Planos de Desenvolvimento Institucionais (PDI) que indicam os objetivos, planos e metas das IES se o documento fica engavetado? Para que serve planejar se as pessoas que comandam a IES não estão alinhadas e enfrentam dificuldades de relacionamento? O PDI, em muitos casos, é uma mera formalidade. A formalidade dos documentos acontece em um ambiente em que a IES enfrenta crise de liderança, pois as pessoas que são estratégicas não assumem a responsabilidade de instituírem o que foi planejado.
Talvez esteja aí um dos males contemporâneos vivenciados pelas IES: crise de liderança. Em um ambiente de expansão do ensino superior é provável que as IES não encontrem líderes capazes de estabelecer as diretrizes que podem fazer com que a IES, de fato, tenha incidência acadêmica.
Uma vez li uma crônica de Max Gehringer em que ele defendia que todas as organizações precisam de pessoas que fazem o básico, que cuidam do que tem de mais simples, pois, no dia a dia, essas pessoas realizam um serviço que faz com que a organização funcione. Por outro lado, as organizações precisam de bons líderes. Porém, quando há crise de liderança, as pessoas estratégicas tornam-se um empecilho para os bons projetos e criam problemas para a dinâmica das organizações.
Não desempenhar as funções, não colaborar efetivamente com os resultados, ter pouca capacidade de inovação, agir de forma indevida e perder tempo com fofocas são atitudes prejudiciais para as organizações. Esse perfil de pessoa não pode exercer funções de liderança.
Os líderes que conseguiram transformar as instituições olharam para o futuro e construíram um conjunto de propostas viáveis e de impacto institucional. Os líderes projetam o futuro da instituição não como obra de um sonho sem fundamento e coerência, mas com estudos, evidências, conhecimento do ambiente em que atuam, diálogo com seus pares e respeito pela cultura institucional. Esses líderes possuem características empreendedoras e são importantes para as organizações, em um ambiente de expansão.
Espera-se que os líderes tenham a habilidade de tornar a ideia e o planejamento em algo concreto, de fazer análises do ambiente em que atuam e de congregar as pessoas. Não basta ter ideias, é preciso performance na execução. Um líder somente é legítimo se é exemplo para seus pares, se consegue reunir as pessoas, não pelo seu poder, mas pela sua conduta e exemplo de vida e coerência nas atitudes.
Henry Rosovsky foi presidente de Harvard e escreveu um belo livro: “The University: an owner’s manual”. Para Rosovsky, em uma IES, os líderes não são apenas as pessoas que compõem a Reitoria ou as diretorias e coordenadorias. Há líderes em todos os setores. Podemos identificar características de liderança em pessoas que não ocupam funções de comando.
Rosovsky nos ensina que é preciso respeitar todas as pessoas, mas exigir os resultados do trabalho. Para ele, não podemos falar em gestão profissionalizada onde não há sintonia entre os líderes. O sucesso da gestão de Rosovsky deve-se a sua capacidade de conhecer o ambiente do ensino superior, a dinâmica de Harvard, olhar o futuro e saber implementar as mudanças.
É bem provável que várias IES do Brasil estejam à procura de líderes com capacidade de olhar o futuro, antecipar-se e propor um conjunto de ações sustentáveis. Se os mantenedores não ficarem atentos aos líderes que mantêm em suas IES, não investirem em formação e no planejamento do processo sucessório, é possível que tenham problemas de governança e gestão.
O setor do ensino superior enfrenta o mesmo desafio de outros setores da economia – contratar bons líderes. De modo geral, o processo de formação de pessoas é visto como custo, não como investimento. O capital mais valioso de uma IES são as pessoas que ocupam as mais diversas funções na área administrativa e acadêmica.
Há organizações em que as pessoas estão preparadas para o exercício da liderança, mas o vínculo com a organização é exclusivamente pelo salário e pelo bônus. O compromisso da pessoa é entregar o resultado esperado pela empresa e o seu foco são seus benefícios financeiros. Essa relação é legítima, mas não considero a ideal. Eu acredito em organizações que investem no compromisso e equilibram resultados financeiros com atitude ética, que respeitam e investem em pessoas, em que seus líderes possuem compromisso real com a organização.
O sucesso de uma IES está diretamente relacionado à capacidade da instituição contar com um time de pessoas comprometidas com a identidade e planejamento institucional. Com o aumento da competitividade em virtude do avanço do mercado educacional, cabe aos mantenedores verificarem se os líderes responsáveis pela dinâmica da instituição possuem o perfil contemporâneo. O estilo de liderança explicará cada vez mais o lugar que a IES ocupará no sistema educacional.
Sistema educacional da Alemanha. O caso da Berufsschule.
Fábio José Garcia dos Reis
No Brasil não é comum olharmos para o sistema de ensino da Alemanha. De modo geral, nosso foco está nos Estados Unidos, que, sem dúvida, possui as melhores universidades do mundo, juntamente com a Inglaterra.
Há um debate no Brasil sobre a relação entre ensino e setor produtivo. Esse debate tem perdido sentido, mas ainda existe. De um lado, há os que criticam o exagero da formação para o mercado de trabalho. Enxergam o foco nessa formação como algo pragmático, em que o perfil do estudante, atende aos interesses do mercado de trabalho. Do outro, os que entendem que é necessário formar pessoas que atendam ao perfil de profissional solicitado pelos empregadores, especialmente dos empregadores.
Foi na Alemanha, com o surgimento da Universidade de Berlim, em 1810, que surgiu um dos modelos de universidade vigentes no mundo contemporâneo, através de von Humboldt. O modelo valoriza a pesquisa como um dos focos que marcam a essência da universidade.
Todavia, é a própria Alemanha que nos ensina que é possível pensarmos em outros modelos de universidade. Além da universidade clássica, como a universidade de Berlim cujo modelo influenciou a origem das universidades brasileiras, há a universidade técnica e as escolas superiores de ciências aplicadas, com cursos focados na conexão com a indústria. O tempo de formação nas escolas é de até três anos. Este tempo de formação é atual, depois da introdução do bacharelado e normalmente atinge 3,5 anos.
O debate acima perde o sentido quando pensamos no modelo de ensino da Alemanha. Primeiro, porque os alemães, que contribuíram com o conceito moderno de universidade, possuem um sistema mais diversificado, quando o comparamos com o do Brasil. No Brasil, as universidades, além da pesquisa, precisam possuir programas de mestrado e doutorado. Essa exigência não existe na Alemanha, que permite, por exemplo, uma universidade técnica. Segundo, na Alemanha, o governo fomenta a relação IES – Empresa. O governo e as IES reconhecem que é preciso o ensino prático e o diálogo com as empresas. Não há controvérsias. Inclusive, a pesquisa aplicada é financiada pelo setor produtivo.
Algo que realmente precisamos aprender com a Alemanha é o seu modelo de ensino profissionalizante. O aluno, ao chegar ao ensino secundário superior (entre 15 a 19 anos), pode optar pela formação profissionalizante. Há três escolas de ensino secundário: Hauptschule (formação geral básica), Realschule (formação vocacional e profissionalizante) e Gymnasium (formação básica avançada), em geral, para os estudantes que pretendem frequentar uma universidade. O estudante que iniciar o Hauptschule e o Realschule pode optar posteriormente por frequentar uma Berufsschule.
Esse modelo de escola pode ser parâmetro para o ensino técnico brasileiro, tanto que, em outubro de 2012, o MEC assinou um convênio de cooperação para enviar 2 mil professores para a Alemanha, para conhecerem e ganharem experiência sobre a forma de funcionamento das escolas alemãs, em especial das Berufsschule. Serão professores dos Institutos Federais de Educação e Ciência e Tecnologia e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI. Os professores terão aula e farão estágios nas empresas.
O que são as Berufsschule? São escolas de formação profissionalizante, que formam seus alunos em um período de 2 anos a 3,5 anos, em um sistema dual. A formação teórica acontece na escola, durante um ou dois dias da semana e a prática em uma empresa, nos demais dias.
O estudante recebe remuneração pelos seus serviços prestados, das empresas onde desenvolvem suas atividades A relação de trabalho é regulamentada pelo governo. Há supervisores na indústria e nas escolas. O desempenho do estudante é avaliado constantemente. A empregabilidade é alta, já que os estudantes possuem as habilidades exigidas pelas empresas.
O benefício para a empresa é a formação teórica na escola, a supervisão, o reconhecimento do governo e o fato de a empresa não precisar criar outras formas de investimento na formação técnica de seus profissionais. A Berufsschule supõe uma real cooperação entre escola e empresa, onde cada um assume suas responsabilidades. A Alemanha, de fato, forma técnicos que atendem a necessidade do setor produtivo, quer seja na indústria, na agricultura ou no comércio, assim como, no próprio setor público.
No Brasil, o Instituto de Formação Profissional (IFPA) é o modelo de formação profissionalizante alemã. O IFPA possui o apoio do Colégio Humboldt, com a Câmera de Comércio e Indústria Brasil – Alemanha e com o Consulado Geral da Alemanha, para o seu funcionamento e dinâmica. São mais de 30 empresas que recebem os alunos do IFPA, para os estágios remunerados. É provável que algumas escolas do Sesi tenham algo semelhante ao IFPA
O UNISAL, Unidade de Lorena, optou em 2010 pela ampliação da oferta de cursos na área de Engenharia e Tecnologia. Em 2011 iniciou-se a primeira turma de Engenharia da Produção. Em 2012, iniciamos as primeiras turmas dos cursos superiores de tecnólogo em Logística e Recursos Humanos e turmas de engenharia (Civil, Elétrica, Eletrônica e Computação). É provável que em 2013 terá inicio a turma de Engenharia Mecânica.
Para 2013, uma das prioridades da Unidade de Lorena é elaborar um projeto para a abertura de cursos técnicos. A previsão é de que os cursos tenham início em 2014. O modelo pedagógico dos cursos técnicos será a Berufsschule. É objetivo é estruturar um projeto pedagógico que privilegie a formação dual (teórica e prática) dos estudantes. O UNISAL irá elaborar um projeto que faça a conexão entre ensino superior (cursos de engenharia e tecnólogos) com os cursos técnicos. Os cursos técnicos utilizarão os laboratórios do UNISAL.
O UNISAL, Unidade de Campinas, tem experiência com escola técnica. Em 1972 foi inaugurada a ETEC Campinas. Hoje são oferecidos 13 cursos técnicos. Em sua origem, a ETEC recebeu apoio da Alemanha na concepção dos cursos e na montagem de seus laboratórios.
Para os gestores da Unidade de Lorena, a ETEC Salesiana de Campinas, o IFPA, o Sesi e as Berufsschule da Alemanha serão parâmetros de concepção, organização e dinâmica da escola técnica do UNISAL – Lorena. O ano de 2013 será de busca de informações, aprendizagem e elaboração do projeto.
O olhar do gestor do ensino superior deve ser para os melhores parâmetros de ensino. Não há dúvida de que os Estados Unidos possuem um sistema de ensino superior que é referência mundial. Entretanto, a Alemanha tem um sistema educacional que precisa ser conhecido. O UNISAL não tem dúvida de que é preciso intensificar as relações IES – empresas públicas e privadas e a Berufsschule é o um modelo de ensino técnico que se tornou referência mundial.
O UNISAL não é favorável ao ensino pragmático e apenas técnico. É possível equilibrar formação técnica, profissional, com formação humana, social e transcendental. Espero, de fato, que a escola técnica do Lorena tenha como referencial a Alemanha.
Como a identidade e a missão institucional de uma IES católica pode ser percebida, vivenciada e institucionalizada? Uma leitura do livro “Engineering education and practice”
Fábio José Garcia dos Reis
Gestores e professores de cursos de engenharia de Faculdades e Universidades dos Estados Unidos organizaram um seminário em 2005. Um dos resultados do seminário foi a publicação do livro “Engineering Education and practice: embracing a catholic vision”. O livro trata de um tema relevante para os gestores de IES católicas do Brasil: a forma como a identidade e a missão institucional pode ser percebida, vivenciada e institucionalizada nos cursos de engenharia.
O desafio é enorme. De modo geral, quando olhamos as matrizes curriculares dos cursos de engenharia das IES católicas, constatamos que a matriz expressa uma formação técnica. O foco na formação profissional é prioritário. Geralmente, a matriz inclui a disciplina de Antropologia Religiosa ou outra similar e o professores da disciplina enfrentam resistência dos alunos, que não enxergam o sentido dessa disciplina.
Podemos ouvir comentários como: “essa disciplina não serve para nada” ou “é uma perda de tempo”. Os alunos tendem a solicitar sua retirada. Provavelmente, há gestores e professores que também não entendem a relevância da disciplina de Antropologia Religiosa.
A falta de percepção dos alunos sobre sua relevância e o trabalho isolado do professor é explicado por quatro fatores. Primeiro, o não envolvimento dos gestores institucionais, que não possuem a percepção sobre a importância da disciplina ou não assumem, de fato, o compromisso com a institucionalização da identidade e da missão da IES. Os gestores que não possuem a consciência sobre a relevância da institucionalização dessa identidade e dessa missão necessitam ser formados e, em alguns casos, substituídos.
Segundo, a atitude do coordenador de curso e dos professores, que também não foram orientados e formados para trabalharem com o tema ou não possuem a percepção sobre a relevância da identidade e dessa missão. Nesse caso, recomenda-se que a IES invista na capacitação e formação dos coordenadores e professores. Não há o que temer. Se a IES realmente quer institucionalizar sua identidade e sua missão, é preciso organizar encontros de formação, provocar nas reuniões de colegiado a discussão de temas de interesse. Nos processos de seleção de coordenadores e professores, recomenda-se que a IES verifique o perfil das pessoas que estão no processo de seleção. A IES precisa declarar a sua intencionalidade, a sua vocação, o perfil do estudante que se quer formar.
Terceiro, é o isolamento do trabalho do professor de Antropologia Religiosa. Os gestores necessitam cobrar a integração da disciplina, o coordenador deve propor trabalhos integradores e temas de interesse institucional que possam ser discutidos por todo o corpo docente. O próprio professor da disciplina tem de assumir um papel proativo e propor ações coletivas e um trabalho multidisciplinar.
Quarto, refere-se à organização e à dinâmica da matriz curricular. Uma matriz curricular que privilegia a formação técnica e profissional não representa, necessariamente, que a formação dos estudantes é mais qualificada e permitirá uma maior empregabilidade, se a compararmos com uma matriz que tenha disciplinas que favoreçam a formação humana, social, transcendental e profissional, ou seja, integral.
Mesmo que a matriz seja eminentemente técnica, os cursos de engenharia não podem deixar de trabalhar com temas da identidade e da missão da IES. Temas como ética, cidadania, inclusão, juventude, justiça, sustentabilidade podem ser tratados por todos os professores. Recomenda-se que os gestores e os coordenadores sejam os guardiões da institucionalização da identidade e da missão nos cursos de engenharia e em todos os cursos que tenham um caráter tecnológico e de impacto de produção de conhecimento científico.
O livro indica ações que podem ser incluídas nos cursos de engenharia das IES católicas. São indicações viáveis: a) promover o diálogo com a teologia, a filosofia e com outras áreas das humanas; b) capacitar coordenadores, professores e pessoal administrativo para que conheçam o perfil de pessoa que a IES quer formar; c) organizar encontros formais que tratem de temas como “engenharia e inclusão”, “engenharia e sustentabilidade”, “engenharia, ética, cidadania e justiça”, “engenharia e identidade institucional”, entre outros; d) investir na formação de pessoas, em cursos que favoreçam um “nova consciência” sobre as diretrizes da Igreja, espiritualidade, identidade, carisma do fundador, entre outros; e) instituir nos projetos integradores das disciplinas e nas atividades extracurriculares, temas que valorizem a identidade institucional e a missão institucional; f) fomentar o trabalho de voluntariado e a conexão com a sociedade, para que as atividades do curso possam ter impacto e relevância social; f) colaborar com a elaboração de projetos e políticas institucionais e públicas que possam efetivamente colaborar com a inclusão social.
As experiências relatadas no seminário demonstram que não se justifica o baixo envolvimento dos cursos de engenharia com temas da identidade e da missão institucional. Os relatos são claros. Quando há na instituição vontade política, pessoas comprometidas e preparadas para exercerem suas funções, o projeto institucional e os projetos de cursos são bem definidos e alinhados com a IES católica.
É possível manter os cursos de engenharia inseridos no contexto das IES católicas. O alinhamento do curso com essa identidade e com essa missão permitirá que a instituição exerça seu papel social, científico e formativo, que favoreça o diálogo entre fé e razão e o anúncio da verdade, o que irá deixar evidente a diferença com as IES privadas ou públicas, que não são confessionais e católicas.
Há lugar para a Teologia nas Universidades?
Lino Rampazzo
Doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Lateranense (Roma)
Professor (Graduação e Mestrado em Direito) no Centro UNISAL/Lorena
Introdução
Num artigo anterior refletiu-se sobre a origem das Universidades e viu-se, entre outros dados, que o termo inicial não foi “Universidade”, mas “estudo geral”, no sentido de indicar uma instituição de nível superior dirigida para todos os estudantes, sem distinção de raça e nacionalidade. Mais tarde a expressão “estudo geral” foi entendida no sentido de “universal”: e passou a indicar o estudo geral, ou universal do saber. Só mais tarde, pelo fim do século XIV, o nome de “estudo geral” foi substituído por “universidade”, com este último sentido.
Pode-se, então, perguntar se as universidades estão abertas ao “estudo geral”, sem excluir qualquer tipo de conhecimento humano.
O título deste artigo questiona se, especificamente, pode existir um espaço para a teologia nas Universidades. Antes, porém, é preciso considerar a Teologia come diálogo entre razão e fé, para, em seguida analisar dois exemplos, neste sentido: uma teologia a partir da realidade e uma teologia a partir da fé.
A) Teologia: diálogo entre razão e fé
É possível um diálogo entre a razão e a fé? E, no caso de uma resposta positiva, qual é o papel da Teologia neste diálogo? A Teologia fica reservada apenas a alguns religiosos-intelectuais totalmente “separados” dos problemas do dia-a-dia que sempre afligem a humanidade?
Neste primeiro item, procura-se responder, de maneira sintética, a tais interrogativos.
1.1 A pessoa humana pensa sua vida
Toda pessoa humana, porque é humana, necessita pensar na sua própria situação, sua vida, suas relações com a natureza, com os outros, com o transcendente, Deus; necessita pensar em suas próprias relações econômicas, políticas, religiosas e pessoais, finalmente, necessita elaborar seu projeto. Todos nós como homens e como agentes sociais, necessitamos de uma imagem para guiar-nos na realidade que nos rodeia. Esta imagem pode ser consciente ou inconsciente, mas sempre existe em todos.
O conjunto mais ou menos coerente de representações, conhecimentos, valores e crenças em que cada um nasce e vive e que assimila e ajuda a elaborar, costuma ser chamado de ideologia, no sentido amplo.
1.2 Todo conhecimento é ato vital e histórico
Nossas ideias e conhecimentos têm alguma relação com práticas ou com algum interesse; isto é assim não porque o queiramos, mas porque todo conhecimento é um ato vital e histórico e aberto a novas contribuições que o enriquecem. Este fato tem uma consequência: nenhuma visão global, nenhuma ideologia, no sentido anteriormente definido, é de fato global, a não ser unicamente na sua intenção. Toda a visão do mundo é parcial, não consegue captar todos os aspectos da realidade. A visão global parte, pois, sempre do particular, onde se situam os interesses dos grupos.
Entendemos estas afirmações como pressupostos que pertencem à estrutura da existência humana, pessoal e social.
1.3 A experiência radical e irredutível da fé
A fé é uma experiência radical, não redutível a nenhuma outra, mediante a qual adere-se a Deus como o sentido e a significação de todos os sentidos e significações: no caso específico da fé cristã, trata-se de aceitar a revelação de Deus que se manifestou, de maneira definitiva, na vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo.
A fé tem a estrutura de um encontro com o absoluto, que se exprime por uma conversão, uma celebração e um comportamento ético específico.
A fé tem sempre uma referência ao absoluto, ao último, ao definitivamente importante, diante do qual tudo mais é relativo: os interesses, as visões do mundo, as ciências e as ideologias.
1.4 Teologia: reflexão racional sobre a experiência da fé
A Teologia se constitui como esforço e penetração racional da experiência e dos conteúdos da fé. A Teologia é a fé pensante e pensada, crítica e sistemática, em uma palavra, é a fé que se procura comprender de maneira reflexiva.
Em primeiro lugar a Teologia, como disciplina, vale dizer, como discurso da fé cristã, é uma só. A ótica que a especifica é contemplar tudo sob a luz da fé: primeiramente Deus e em seguida todas as coisas à luz de Deus.
O objeto da Teologia não é somente Deus enquanto acessível à razão ou enquanto revelado, mas também todos os seres enquanto podem ser vistos à luz de Deus.
Pertence também à tarefa da teologia falar de política, de economia, de sociedade, de ecologia, de bioética, enquanto fale não politicamente, nem economicamente etc., porém, teologicamente, isto é, à luz de Deus. Essa é a consideração específica do discurso teológico. É o que confere unidade à teologia enquanto teologia.
1.5 Teologia e teologias
Ainda que a teologia seja uma só, existem modos diversos de realizar a tarefa teológica. A razão pela qual se constrói a Teologia é sempre uma razão histórica. O teólogo reflete sua realidade: participa dos condicionamentos de seu tempo, tanto materiais, como espirituais. A elaboração teológica é sempre afetada pelo lugar social que ocupa o teólogo dentro da Igreja e dentro da sociedade. Não é a mesma coisa fazer teologia a partir de uma barricada ou de um centro acadêmico, de Roma ou da Cidade do México. Toda a teologia tem certos compromissos oriundos de seus destinatários: o povo, os letrados, os próprios teólogos; ou oriundos da linguagem que utiliza e dos instrumentos racionais que emprega.
Na sua elaboração interna, isto é, na maneira como argumenta a partir da Escritura, da Tradição, do Magistério, da vivência dos fiéis (sensus fidelium), e da razão teológica, a Teologia é autônoma. Entretanto, quanto à seleção dos temas a estudar, quanto à forma e à ênfase de tratá-los, quanto à definição dos destinatários e por conseguinte quanto à própria linguagem, a Teologia depende da sua inserção na história e na sociedade.
1.6 Teologia a partir das fontes e a partir da realidade
Há duas formas básicas de fazer teologia como inteligência da fé.
a) Uma consiste em tomar os temas diretamente teológicos como são apresentados pela Igreja e procurar aprofundá-los racionalmente. Assim se estuda o tema de Deus, da Santíssima Trindade, de Jesus Cristo, da Graça, do Pecado, da Igreja, dos Sacramentos.
Esta tarefa foi executada genialmente pelos grandes mestres medievais.
Os conteúdos teológicos não têm apenas uma significação interior à Igreja, mas também uma significação social. Por exemplo, a teologia diz que Deus é transcendente e santo, porém não é um Deus neutro; é um Deus que ama a justiça e abomina a iniquidade, que é sensível ao grito dos oprimidos e que quer um culto que seja expressão de justiça, de misericórdia e de fidelidade. Não se trata, pois, de uma teologia alienada.
b) A outra consiste em refletir sobre temas que não são diretamente teológicos, mas que são seculares, ou temporais, buscando ver sua conexão com o desígnio de Deus e sua ordenação com o Reino. Assim se podem tomar temas como: secularização, processos de mudança social, análise de sistemas econômicos e políticos, valor das lutas populares em favor de maior justiça; ou os temas hoje muito debatidos da ecologia e das células-tronco embrionárias.
Neste caso, a indagação é a seguinte: como decobrir a dimensão teologal que está presente em tais realidades e como apresentá-la teologicamente? Tais realidades estão inseridas no mistério da criação de Deus, foram penetradas pelo mistério da encarnação; o Ressuscitado e seu Espírito estão presentes dentro dos dinamismos humanos.
Ambos os métodos, utilizados de modo exclusivo, têm seus riscos: o primeiro, de permanecer num plano abstrato e insensível à voz de Deus que interpela a partir das realidades terrestres e dos humildes oprimidos; o segundo, por sua vez, de reduzir a interpretação das realidades terrestres sem considerar adequadamente as fontes da Revelaçao (Bíblia, Tradição, Magistério) (BIGO; ÁVILA, 1982; SANTOS, 1986).
B) Teologia a partir da realidade: a questaõ das Células-tronco embrionárias
Vamos apresentar um exemplo de “fazer teologia” a partir da realidade. Reflete-se, pois, sobre temas que não são diretamente teológicos, mas seculares, ou temporais, buscando ver sua conexão com o desígnio de Deus e sua ordenação com o Reino. O tema escolhido é o das células-tronco embrionárias.
- 1. O contributo da teologia nas questões da bioética
A problemática das células-troco embrionárias encontra-se ligada estreitamente à questão da vida humana: vida essa que comporta um olhar interdisciplinar. Não se trata de uma abordagem dispersiva, mas de uma abrangência concentrada, porque toda ela está voltada para a temática da dignidade da vida humana. O mesmo nascimento da bioética teve como ponto de partida a consciência de que o progresso científico-tecnológico indiscriminado punha em perigo a existência, ao mesmo tempo, da humanidade e do planeta: e nasceu e se desenvolveu num contexto claramente interdisciplinar (PESSINI; BARCHIFONTAINE, 2007).
O enfoque religioso que entrou, para alguns indevidamente, nessa questão estimula a reflexão sobre a especificidade da teologia e seu possível diálogo com as problemáticas atuais. Qual poderia, ser, pois, a contribuição da teologia neste tipo de questões?
Já vimos, antes, que a teologia procura um diálogo entre os dados da fé e os da razão: é o esforço constante de uma determinada comunidade de fé visando permanecer em contato com o mundo e seus problemas, suas dúvidas e projeto (LATOURELLE, 1981, p. 17-18).
Este raciocínio, a primeira vista, pode aparecer totalmente fora das específicas questões bioéticas, particularmente da que diz respeito às células-tronco embrionárias. Mas a análise da história da filosofia ocidental mostra que o contato do cristianismo com a filosofia trouxe para esta novos olhares, tais como a dignidade da pessoa humana, a igualdade entre os homens, a liberdade, a fraternidade etc.
Neste sentido assim se expressou o filósofo neo-marxista Roger Garaudy: “O cristianismo criou uma nova dimensão no homem: a da pessoa humana. Esta noção era tão alheia ao racionalismo clássico que os Padres gregos não conseguiam encontrar na filosofia grega as categorias e as palavras próprias para exprimirem esta nova realidade”. (1963, p. 63)
Ficando apenas com o primeiro exemplo, o conceito de pessoa, aplicado a todo ser humano, totalmente estranho à filosofia grega, foi desenvolvido a partir do cristianismo: no começo para definir questões trinitárias e cristológicas, quer dizer, apenas teológicas. Depois, a partir de Agostinho, percebeu-se que tal conceito podia ser aplicado ao homem: e o conceito de pessoa se estende, pois, da teologia para a antropologia. No fundo, o olhar da fé estimula a razão para se entender melhor.
Quando se considera a Ação Direta de Inconstitucionalidade ajuizada pelo Procurador-Geral da República a respeito da utilização de células-tronco embrionárias (Adin n. 3510), percebe-se que o argumento aduzido foi o da necessidade de respeitar o princípio da “dignidade da pessoa humana”, como fundamento do Estado Democrático de Direito (Art. 1 da Constituição).
Mas este princípio, como se afirmou, nasceu historicamente, de um “diálogo” entre teologia e filosofia; e acabou sendo acolhido na área jurídica (RAMPAZZO, 2009a).
No diálogo com a Bioética, a teologia aprende as novas descobertas e capacidades da biotecnologia; e traz a sua contribuição específica com o conceito de sagrado, aplicado à vida humana.
De fato, uma das características fundamentais da modernidade foi o desencantamento do mundo, que permitiu a intervenção e manipulação da natureza. Esta, esvaziada de sua dimensão sacral, foi fragmentada e reduzida a recursos naturais a serviço da exploração humana. Essa visão alavancou o progresso técnico-científico e a industrialização moderna trazendo para a humanidade, ao mesmo tempo, benefícios, catástrofes e danos.
Hoje, o processo de desencantamento e fragmentação atinge o próprio ser humano. As possíveis aplicações no campo da genética são promissoras para a cura de inúmeras doenças e trarão grandes benefícios para a humanidade. Mas no rasto destas terapias virão, certamente, manipulações genéticas não mais terapêuticas, mas baseadas em desejos narcisísticos ou em pretensões eugênicas. E não serão leis jurídicas que poderão impedir estes desvios porque irão responder a demandas subjetivas criadas pela mentalidade cultural e transformadas em direitos com respaldo jurídico.
Pergunta-se, agora, que tipo de desastre antropológico poderá ocasionar uma ciência, inclusive a nanobiotecnologia, que não dialoga com o sagrado. A ciência genética é, pois, muito importante para ser deixada somente aos cientistas (PESSINI, 2008).
Na realidade o diálogo entre fé e razão, distingue os dois elementos. Na visão da fé religioso-cristã, o ser humano é considerado na sublime dignidade de filho de Deus, e, por isso, merecedor do maior respeito: trata-se do específico enfoque religioso. Mas esta visão de fé inspirou alguns princípios éticos, que são racionais, como os seguintes: a dignidade da pessoa humana, os princípios do cuidado, da solidariedade, da co-responsabilidade e da alteridade. E tais princípios podem ser aceitos também por parte de quem não possui uma específica fé religiosa: è o amplo e necessário diálogo entre pessoas de religião diferentes, ou também sem referências religiosas.
Neste sentido, a afirmação de que o início da vida humana, chamado também de “hominização”, ou “personalização” (MOSER, 1982, p. 39), se daria a partir da fecundação não é um dogma de fé, não é uma afirmação religiosa, mas apenas uma afirmação racional, com seus argumentos a favor e contra. A defesa do grande valor da vida humana, a partir da fecundação até a morte natural é apenas um princípio ético: trata-se do princípio de segurança (ELIZARI, 1996), ou de precaução. Este último, da mesma forma que é aplicado ao Direito Ambiental (art. 225, § 1o, V, da Constituição Federal; Lei 9.605/1998, art. 54, § 3o) é devidamente aplicado também na questão das células-tronco embrionárias: diante da incerteza acerca da presença de uma pessoa humana, devido às várias teorias sobre a origem da vida especificamente humana, ou da possibilidade de provocar prejuízos ao meio ambiente, opta-se pela não-intervenção e pela procura de caminhos alternativos, até que seja esclarecido o alcance real de uma determinada intervenção (COLOMBO, 2004).
Muito significativo, neste sentido, é o posicionamento da “Instrução sobre o respeito à vida humana nascente e a dignidade da procriação”, da CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, intitulada Donum Vitae (= o dom da Vida) (1987). Nela encontram-se os seguintes argumentos de ordem racional.
Os critérios morais aplicados no campo biomédico se baseiam numa adequada concepção da natureza da pessoa humana na sua dimensão corpórea. Esta é uma “totalidade unificada”, simultaneamente corporal e espiritual; o corpo humano não pode ser considerado apenas como um conjunto de tecidos, órgãos e funções, nem pode ser avaliado com o mesmo critério do corpo dos animais.
Nenhum biólogo ou médico pode pretender decidir sobre a origem e o destino do homem, particularmente no âmbito da sexualidade e da procriação, no qual o homem e a mulher atuam os valores fundamentais do amor e da vida. As intervenções médicas não devem ser recusadas pelo fato de serem artificiais, desde que respeitem a dignidade da pessoa humana (1987, p. 12-14).
Este texto, certamente inspirado na visão especificamente religiosa de Deus criador e providente, apresenta também uma visão racional filosófica sobre o corpo humano, que não pode ser considerado apenas “um conjunto de tecidos, órgãos e funções” (p. 12); sobre os valores fundamentais do amor e da vida; e sobre as intervenções artificiais que precisam respeitar a dignidade da pessoa humana.
Enfim, todos estes problemas questionam o sentido geral do mundo e da vida humana. Veja-se, neste sentido, o texto a seguir:
No confronto com a ciência e no diálogo com os filósofos da era moderna tem que voltar a questão básica: o que mantém o mundo? É a matéria que cria a razão, é o puro acaso que produz o significado, ou, pelo contrário é a inteligência, o logos, a razão que vem antes, de tal maneira que a razão, a liberdade e o bem já fazem parte dos princípios que constituem a realidade? (RATZINGER, 2005, p. 115).
No mesmo sentido se expressou, recentemente, o filósofo alemão Robert Spaemann:
O físico não encontra diretamente a Deus. Mas, quando se fala do Big-Bang, ele está como que diante de um muro, pois não pode dizer, com a sua metodologia, o que se encontra além. O crente, porém, pode fornecer uma explicação: isso significa que as ambições da razão são reforçadas pela ligação com a fé. (Apud GALLI, 2013).
Em suma, o diálogo entre a fé e a razão, no campo ético, estimula a pensar sobre o significado da existência, a questionar se o mundo deva ser entendido a partir de um intelecto criador ou de uma combinação de probabilidades dentro de algo que em si não possui sentido (RATZINGER, 2008, p. 23), sobre os riscos do desrespeito à dignidade da pessoa humana, inclusive diante das novas possibilidades da biotecnologia.
2. 2 Ética e Direito na questão da experimentação com células-tronco embrionárias
Na visão interdisciplinar desta reflexão, começou-se com as considerações teológicas e passou-se, em seguida, às éticas. Mas é necessário chegar também ao campo jurídico. Em outros termos, pergunta-se: a Lei pode proibir a experimentação com células-troco embrionárias?
Com a decisão final proferida pelo STF não há mais instrumentos, dentro da estrutura processual brasileira, para contestar a “Lei de Biossegurança”. O debate, todavia, continua no cenário bioético (SILVEIRA, 2009), que abrange também o aspecto jurídico.
Neste debate, entra a questão da relação entre ética e direito. De fato, o assunto sobre ética, hoje de domínio público, é discutido também no campo jurídico.
É importante dizer que ética e lei não coincidem, mas ambas estão a serviço da mesma pessoa humana. Portanto não podem ser contraditórias, nem se tornar empecilho para o ser humano. Ambas tendem à plena humanização da pessoa e da sociedade. A lei não é feita para proteger ou tornar obrigatória toda a ética. A sua função é organizar, incentivar, defender uns aspectos importantes da vida social. Não pode se colocar contra a ética, antes, deve como que “respirar” ética. Uma lei contrária à ética perde a sua capacidade de obrigar a pessoa.
Entre ética e direito há profundas semelhanças e diferenças. Ambos estudam o agir humano: a ética em vista do último fim; o direito em vista de uma organização social-terrestre da sociedade. Outra diferença está na origem. Sabemos da divergência de Sócrates diante dos Sofistas. Estes afirmavam que os códigos morais coincidem com os códigos civis, sendo ambos um produto da sociedade e portanto convencionais. Sócrates afirmava que os princípios éticos, à diferença das tomadas de posição jurídicas, são exigência da própria natureza racional do homem e portanto universais. O pensamento humano oscilou sempre entre as duas alternativas.
Ora, é claro que cada lei não nasce de uma sociedade abstrata mas em contextos geográficos e culturais diferentes, espelhando a cosmovisão de cada grupo e formulada para responder a desafios novos, não contemplados na legislação precedente.
Em situações de pluralismo ideológico-cultural, em que, portanto, os valores são recebidos de maneira diferente, o legislador não poderá privilegiar uma ou outra mundividência, devendo-se contentar em legislar sobre o que, no momento, parece melhor, em prol da parte maior e com o menor prejuízo possível.
Como se vê, a lei não tem a mesma extensão que a ética, pois a ética é totalizante. Em nenhum momento a pessoa humana pode dispensar a ética e viver de maneira neutra. A lei só regulamenta aspectos parciais da vida social. Mesmo que a lei deva se inspirar na ética, nem tudo o que é ético é jurídico e nem tudo o que é jurídico se torna ético (MASI, 1996, p. 168-172).
Na questão específica da utilização das células-troco embrionárias para fins de pesquisa, estamos na situação do pluralismo ideológico-cultural: o que, entre outros fatores, pode explicar o resultado do julgamento do STF por seis a cinco.
2.3 A atuação dos católicos na política nas questões bioéticas
O Brasil é um país que religiosamente abriga uma grande maioria de católicos. Põe-se, pois, o problema de como o católico que atua na política vai exigir uma determinada lei extensiva para os que praticam outra religião, ou nenhuma religião.
A esse respeito há um texto muito interessante, escrito por Joseph Ratzinger, poucos meses antes dele ser eleito Papa. A citação é longa, mas vale a pena apresentá-la.
O católico não quer e não pode impor, através da lei, hierarquias de valor que somente na fé podem ser reconhecidas e realizadas. Pode apenas exigir o que pertence às bases da humanidade que tem como fundamento a razão: e que, por isso, são essenciais para a construção de um bom ordenamento jurídico…
Existe o patrimônio específico da fé (Trindade, Divindade de Cristo, Sacramentos etc.); mas existem também conhecimentos a cujas evidências a fé dá a sua contribuição: e que, depois, são reconhecidas como racionais e, por isso, implicam uma responsabilidade frente aos outros.
O fiel, que recebeu uma ajuda para a sua razão, deve empenhar-se em favor da razão, em favor daquilo que é racional. Isso, diante da razão doente ou adormecida, torna-se um dever diante de toda a comunidade humana.
Naturalmente o fiel sabe que deve respeitar a liberdade dos outros e que a sua única arma é exatamente a racionalidade dos argumentos que propõe diante das discussões políticas e na luta para a formação da opinião pública. (2005, p. 117-118).
Fica, pois, clara a necessidade, por parte do cristão, de dialogar com argumentos de razão e, o mesmo tempo, com respeito para com aqueles que têm opinião diferente. E, no caso que prevaleça um tipo de lei contrária às próprias convicções, o mesmo Autor fala do recurso à objeção de consciência, nestes termos:
Seja a encíclica Evangelium Vitae, como a Instrução Donum Vitae, estão conscientes do fato que, na base de uma razão sobre a qual hoje há opiniões tão contrastantes, nunca será possível chegar ao necessário consentimento para uma legislação sobre as questões éticas da vida que corresponda plenamente à consciência cristã. Por isso, ambos os textos insistem para que o legislador, a partir do princípio comumente reconhecido da liberdade de consciência, deveria, neste âmbito, conceder o direito à objeção de consciência: a Igreja não quer impor aos outros o que não entendem, mas espera, por parte deles, pelo menos, o respeito para a consciência daqueles que deixam guiar a sua razão pela fé cristã. (2005, p. 121-122 ).
O texto citado faz referência à Encíclica Evangelium Vitae e à Instrução Donum Vitae. Sobre esta última já se falou acima. Quanto à Encíclica, foi um documento publicado em 1995 por João Paulo II sobre o Valor e a Inviolabilidade da Vida Humana: esta mensagem foi enviada não só aos fiéis católicos, mas “a todas as Pessoas de Boa Vontade”. De fato a ética é a “casa comum” para todos os homens viverem em paz.
Os textos respondem à questão de como deva comportar-se o cristão na política, em um mundo hoje pluralista. E a resposta é a seguinte. Os cristãos que atuam na política, no campo científico, ético e jurídico, procuram, por um lado, argumentos racionais que justifiquem uma determinada formulação da lei; e, por outro, quando alguns valores éticos não são reconhecidos, do ponto de vida legal, reclamam seu direito à objeção de consciência e continuam sensibilizando a sociedade para que, aos poucos, aceite incorporar na sua legislação, elementos mais respeitosos do princípio da dignidade da pessoa humana.
Não se pode esquecer, a título de exemplo, que, por séculos, a “escravidão dos negros” foi “lei”; e que, aos poucos, se chegou, com uma maior sensibilização da sociedade, à abolição desta lei.
2.4 Dominar a natureza sem a ética?
Quando o homem domesticou o cavalo, não surgiram problemas éticos, ainda que essas conquistas tivessem servido não só para trabalhar a terra e transportar os produtos, mas também para abastecer os exércitos e aumentar a sede de conquistas. Hoje, o problema ético aparece de modo mais agudo pelo fato que a tecnologia colocou a possibilidade real de destruir o próprio homem, a humanidade toda e até o planeta Terra (SGRECCIA, 2002).
Esta triste possibilidade sensibiliza sobre a necessidade de unir todos os esforços para salvar, ao mesmo tempo, o homem e o meio ambiente.
Uma destas descobertas diz respeito às células-tronco embrionárias. A sua atualidade é caracterizada por pesquisas recentes, anunciando sucessos terapêuticos com a utilização delas para os mais diversos problemas de saúde. A complexidade é marcada pela questão central da dignidade da vida humana e a visão interdisciplinar que ela comporta. Pode existir uma neutralidade ética na pesquisa científica? Pode-se escolher apenas o critério da eficiência técnica, ou o da ideologia dominante?
É essa atualidade e complexidade que levam o tema a ser discutido, então, por vários ângulos, com olhares múltiplos, mas não desconectados entre si, quais sejam, a teologia, a ética e o direito.
A leitura teológica traz sua contribuição na recuperação do sagrado, que acaba sendo, ao mesmo tempo, a base da ética, mais especificamente, a ética do cuidado, da solidariedade, da co-responsalidade e da alteridade.
A ética considera o homem como uma “totalidade unificada”, simultaneamente corporal e espiritual; o corpo humano não pode ser considerado apenas como um conjunto de tecidos, órgãos e funções. Nenhum biólogo ou médico pode pretender decidir sobre a origem e o destino do homem, particularmente no âmbito da sexualidade e da procriação, no qual o homem e a mulher atuam os valores fundamentais do amor e da vida. O grande valor a ser promovido é o da dignidade da pessoa humana.
Sobre este princípio se criam as leis: e o direito, entendido como prática de justica, deveria estar a serviço desta dignidade.
Fica difícil, num tempo de pluralismo cultural, e, ao mesmo tempo, de imposição midiática de valores, descobrir, em cada situação, como promover o valor da dignidade humana. Mas é o desafio dos tempos atuais. A interdisciplinaridade desta temática precisa levar a uma interação entre os sujeitos de diferentes áreas para que este valor, solenemente proclamado no Art. 1º da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, seja efetivamente posto em prática em cada situação.
C) Teologia a partir de um Documento do Magistério: a questão ecológica
No primeiro item, sobre “Razão e Fé”, falava-se das duas formas básicas de fazer teologia como inteligência da fé: a partir das fontes (a Bíblia, a Tradição e o Magistério da Igreja), ou a partir da realidade. Nesta última modalidade, refletiu-se, no item anterior, sobre a questão das células-tronco embrionárias, um tema que não é diretamente teológico, mas secular, ou temporal, e de grande atualidade, buscando ver sua conexão com o desígnio de Deus e sua ordenação com o Reino.
Neste terceiro item, vamos refletir sobre um outro tema de atualidade, a Ecologia, mas com o outro método: a partir de um Documento do Magistério da Igreja, a saber a Mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz de 2010. Nela, há aspectos que dizem respeito à específica visão da fé cristã; mas há também considerações éticas que podem ser recebidas por parte de “todos os homens de boa vontade”.
3.1 “Se quiseres cultivar a paz, preserve a criação”: elementos éticos da mensagem do dia mundial da Paz de 2010
Pergunta-se de que maneira a Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010, cujo tema foi “Se quiseres cultivar a paz, preserve a criação”, aborda a temática ética no campo da ecologia.
Do ponto de vista formal, o texto se apresenta estruturado em 14 números.
A Mensagem começa lembrando os numerosos perigos que ameaçam a paz e o autêntico desenvolvimento humano integral, seja devido à desumanidade do homem para com seu semelhante (guerras, conflitos, terrorismo), seja ao desleixo e ao abuso em relação à terra e aos bens naturais.
A perspectiva especificamente teológica desta reflexão tem como base a fé no Deus criador, que quer uma aliança entre o ser humano e o ambiente, considerado não como fruto do acaso, mas como espelho do amor criador de Deus, origem e destino do homem. Este tipo de relação entre homem e ambiente natural aponta para um novo compromisso ético: a responsabilidade comum para com a humanidade inteira, especialmente os pobres e as gerações futuras. Trata-se de expressões da “macroética”, que diz respeito às ações feitas com a participação de muitos atores e à responsabilidade das empresas e das políticas nacionais e, particularmente, internacionais.
No atual “estado de saúde ecológica da terra”, fruto de uma “crise cultural e moral do homem”, impõe-se um modo de viver marcado pela “sobriedade e solidariedade”.
Na específica visão teológica, Deus colocou o homem na terra não para explorá-la, mas “para cultivá-la e guardá-la”. A arbitrária disposição sobre o mundo é fruto do pecado, que leva o homem a se deixar dominar pelo egoísmo, provoca um conflito entre ele e a natureza, e, consequentemente, provoca uma rebelião da natureza.
Lembra-se aqui um outro princípio básico do pensamento social cristão: a “destinação universal dos bens”, para o qual a terra pertende “à humanidade inteira”. Neste sentido, o atual ritmo de exploração põe em perigo a disponibilidade de alguns recursos naturais especialmente para as gerações futuras. A atividade econômica precisa, pois, respeitar, ao mesmo tempo, o ambiente e a sociedade, inclusive através de normas bem definidas “mesmo do ponto de vista jurídico e econômico”.
Aparece, então, o valor da “solidariedade” no espaço e no tempo: quer dizer, seja “entre os indivíduos da mesma geração”, como “entre gerações”, para que o uso dos recursos naturais, especialmente dos não renováveis, não comporte consequências negativas: seja os países industralizados, como os menos desenvolvidos têm sua própria responsabilidade para com a criação. Mais especificamente esta responsabilidade precisa manifestar-se na redistribuição mundial dos recursos energéticos.
Os valores éticos que estão na base deste novo modelo de desenvolvimento são a centralidade do ser humano, a promoção do bem comum e a virtude da prudência, que indica as ações a serem realizadas hoje na previsão do que poderá suceder amanhã. Neste sentido indicam-se alguns caminhos: o da pesquisa científica e tecnológica, direcionada a explorar a grande potencialidade da energia solar; a atenção à questão da água e ao sistema hidrogeológico global; a procura de apropriadas estratégias de desenvolvimento rural centrada nos pequenos cultivadores e nas suas famílias; a elaboração de políticas idôneas para a gestão das florestas; o tratamento do lixo; a valorização de sinergias existentes no contraste às alterações climáticas e na luta contra a pobreza. Temos, dessa maneira, uma “ecologia humana e social”.
Um outro princípio ético, lembrado na mensagem, é o “princípio de subsidiariedade”, que reconhece a responsabilidade de todos, autoridades e particulares. Apela-se para uma visão global do mundo, que considere as necessidades de todos os povos, caso contrário, a deterioração de uma parte qualquer do mundo recairia sobre todos; e, juntamente com o problema ambiental, os esforços da comunidade internacional precisam ser direcionados para obter um progressivo desarmamento e um mundo sem armas nucleares.
Neste sentido, “ecologia humana” e “ecologia ambiental” estão interligadas, pois “o livro da natureza é único”. Esta ecologia tem como base os princípios da “inviolabilidade da vida humana em todas as suas fases e condições, a dignidade da pessoa e a missão insustituível da família, onde se educa para o amor o próximo e o respeito da natureza”.
Neste sentido, trata-se de evitar dois extremos: por um lado uma concepção inspirada no ecocentrismo e no biocentrismo, um “novo panteísmo”, que levaria a absolutizar a natureza, eliminando a diferença ontológica e axiológica entre a pessoa humana e os outros seres vivos; e, por outro, a posição que considera a técnica e o poder humano como absolutos e causadores de um grave atentado à natureza e à própria dignidade humana. A última recomendação da mensagem aponta para o compromisso de todos, para proteger o ambiente natural, como condição para construir um mundo de paz.
Considerações finais: um espaço para a teologia na Universidade?
No primeiro dos artigos desta série, a respeito da origem das universidades, viu-se que, por um lado, o termo “universidade” apontava para a instituição aberta ao “saber universal”, e, por outro que, neste sentido, desde o começo, no século XII, foi dado um espaço significativo à área teológica, em diálogo com o direito, a medicina e o saber enciclopédico.
A época da Renascença e do Iluminismo marcou a crise deste modelo dialógico; e a teologia acabou, muitas vezes, relegada apenas ao Ensino Superior eclesiástico.
A crise da atual sociedade, a pós-moderna, é caracterizada pela decepção frente à ciência e à técnica.
Esta decepção tem a sua razão de ser ao considerar a situação cada vez pior do meio ambiente, as guerras que prosseguem, as experiências atômicas que continuam, as injustiças e distâncias crescentes entre ricos e pobres, o fracasso de muitas previsões otimistas. O ideal de resolver os problemas da humanidade pelo “ter mais” e não pelo “ser mais”, tanto nos países capitalistas, quanto nos socialistas de corte marxista, mostrou-se e mostra-se irrealizável. É precisamente a consciência ecológica e o problema da vida no mundo que torna questionável a viabilidade do projeto da modernidade, a saber, o do progressivo domínio da natureza mediante sua despótica observação. A ciência, assim, está perdendo seu valor como fonte de sentido e deixa, com a técnica, de ser considerada cada vez mais como princípio válido de orientação cultural. Esta crise das forças de configuração dos tempos modernos tem necessariamente seus efeitos sobre o que há de mais íntimo no homem do Ocidente e coloca em xeque seu pensar, seu agir e seu sentir. Nasce uma crescente insegurança quanto ao futuro. Levantam-se perguntas angustiantes: Como se pode ter hoje uma identidade? Quem somos? Que devemos ou queremos ser? A resposta é cada vez mais difícil no mundo cheio de problemas.
Volta-se, então, às perguntas básicas do ser humano: Quem sou eu? De onde venho e para onde vou? Por que existe o mal? O que é que existirá depois desta vida?
Estas perguntas são comuns seja na filosofia, como na fé. Esta, além da pergunta, tem as respostas. Mas as respostas são sinal de que existem as perguntas. A fé confirma a existência das perguntas e aponta para a necessidade de uma resposta. E, quanto às ciências, estas se limitam a entender as leis dos fenômenos materiais. Mas o mundo se explica apenas com sua materialidade? E o homem é apenas um conjunto de tecidos, órgãos e funções?
Pergunta-se pois, se a universidade, instituição aberta para toda espécie de “saber” tenha que excluir “de vez” esta problemática, com todas as suas possíveis respostas.
Os exemplos acima apresentados, nas questões específicas das células-tronco embrionárias e da ecologia, mostraram um diálogo possível, frutuoso e urgente entre razão e fé.
Para concluir, vejam-se os objetivos que John Henri Newmann (1810-1890), destacado renovador da Universidade de Oxford, atribuiu à Pedagogia Universitária, aproveitando das experiências das várias universidades do mundo daquela época:
a) manutenção e desenvolvimento da cultura superior;
b) formação de profissionais segundo o princípio vocacional de suas aptidões (modelo da universidade francesa);
c) investigação científica (modelo das universidade alemãs);
d) formação de homens e personalidades (modelo das universidades inglesas);
e) inflência sistemática na elevação do nível cultural do povo (modelo das universidades dos Estados Unidos);
f) a teologia em todos os ramos superiores do conhecimento a fim de proporcionar uma visão de conjunto sobre a cultura, sobre o mundo e sobre a vida. De fato:
Teologia é um conhecimento científico com o mesmo direito que a teoria de Newton é uma ciência. Um ensino universitário sem teologia é redondamente antifilosófico. A Teologia tem, pelo menos, tanto direito a um lugar na Universidade como a Astronomia. (NEWMANN, apud LARROYO, 1974, p. 658-659).
Em suma, abrindo espaço para a teologia, a “Universidade” será mais aberta ao “saber universal”, será mais…”universidade”.
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