Estamos ensinando certo na Educação Superior?
Acir Mário Karwoski.
Pró-Reitor de Ensino da Universidade Federal do Triângulo Mineiro
UFTM – Uberaba – MG
Tive a feliz oportunidade de participar da palestra intitulada “Memorização ou compreensão: estamos ensinando o certo?”, ministrada pelo professor Dr. Eric Mazur – Harvard University – USA no Auditório do Centro Universitário Salesiano – UNISAL – São Paulo – SP, dia 26 de janeiro de 2012, das 14 às 16 horas. O palestrante é pesquisador da Universidade de Harvard, e do LASPAU-IDIA – LASPAU’s initiative for the development of academic innovation. A iniciativa do grupo ligado à Universidade de Harvard é criar programas e iniciativas visando fomentar e fortalecer mudanças na cultura de ensino e inovação nas universidades latinoamericanas e do Caribe.
Eric Mazur integra o corpo docente da Universidade de Harvard desde 1984 sendo considerado um dos professores mais destacados. Supervisiona um dos mais importantes grupos de pesquisa no Departamento de Física de Harvard. Autor e coautor de mais de 200 publicações científicas. No âmbito da educação, destaca-se com o livro “Peer instruction: a user’s manual” que versa sobre como ensinar de forma inovadora e desafiadora em classes numerosas.
Muitas pessoas não sabem como aprendem; nem sabem por que ficam bons em determinadas áreas. Mazur iniciou sua palestra questionando os participantes: “pense em algo que você sabe fazer muito bem; alguma coisa que você faz bem como, por exemplo, tocar piano. Como você aprendeu a tocar piano? Muitos com certeza se lembram que aprenderam por tentativas de acertos e erros; outros participando de aulas expositivas e de palestras; outros praticando; outros treinando na condição de aprendizes em orquestras, dentre outras maneiras de aprender. Mas certamente a maioria, segundo o pesquisador, aprendeu com a prática, com muitos erros, ensaios, reflexões e acertos.
O que impressiona e surpreende aprender na prática? Como temos certeza que ensinamos apenas com aulas expositivas, sem atividades práticas? Mudaram os espaços escolares! Nossas escolas permanecem iguais às do século passado. Como focar a atenção de muitos estudantes ao mesmo tempo? Educação não pode ser apenas exposição de informações ou transmissão de informações. Isso as redes sociais, a internet ou a mídia fazem muito bem! Há algo a mais na educação do que a simples transmissão de informações? questionou o pesquisador.
Segundo Mazur, a informação precisa ser assimilada para extrair conhecimentos e aplicada a novos contextos, novas maneiras de ser; informação aliada à prática. O problema deixa de ser problema numa aula de cálculo, por exemplo, quando o estudante encontra razão para resolver de forma autônoma esse problema. Assimilar a informação e conectar com a experiência aplicando a novos contextos vivenciais. Assim, a aprendizagem torna-se mais concreta, mais significativa.
O professor deve ser motivador desse processo de aprendizagem; o estudante precisa ser desafiado a querer entender para compreender e assim aprender, produzir novos conhecimentos, novas aprendizagens. Memorização, ou como dizem “decoreda” não leva à aprendizagem significativa. Às vezes o estudante erra a resposta diante de um problema de cálculo porque o questionamento foi mal encaminhado pelo professor, pois cada ser humano tem um encaminhamento compreensivo peculiar.
As maneiras pelas quais avaliamos os estudantes na Educação Superior acaba criando uma imagem a respeito do processo de avaliação. Cabe a cada professor se autoavaliar: sou professor “decoreba” ou professor compreensivo? Assim, segundo Mazur, o professor da Educação Superior pode inovar na elaboração de questionamentos para seus estudantes. Ser claro, objetivo, desafiador. Não tradicional. Não há princípios básicos de compreensão comuns a todos os estudantes. Cada estudante pensa e compreende do seu jeito. O raciocínio o conduz à compreensão.
Portanto, problematização é a palavra-chave no processo de aprendizagem na Educação Superior. Há desempenho convencional e desempenho conceitual por parte dos estudantes. As questões propostas pelos professores devem ser conceituais e menos convencionais, menos conteudísticas. O livro didático, muitas vezes, traz apenas questionamentos convencionais. Os estudantes decoram fórmulas para aplicar aos problemas apresentados, sem conceitualizá-los. Não basta apenas memorizar. O estudante precisa compreender. Interagir com os colegas para resolução dos problemas torna-se uma boa alternativa metodológica para compartilhar experiências entre os estudantes, sem a interferência única e direta do professor. Pares iguais, com mesmos interesses de aprendizagem, têm maior probabilidade de convencer seus pares com menor capacidade de compreensão. Quem conhece determinado conteúdo tende a ser mais incisivo com seus colegas conduzindo-os à aprendizagem. Nem sempre o professor sozinho consegue essa façanha.
Há, segundo Mazur, uma espécie de “maldição” do conhecimento: quanto mais você sabe sobre o assunto mais difícil torna-se a transmissão do conhecimento. Fica mais difícil para o estudante assimilar a linguagem do expert professor. A proposta de Mazur, intitulada peer instruction visa dar aos estudantes maior responsabilidade para transmitir informações, ajudando estudantes em pares ou grupos de estudos a assimilar melhor os conhecimentos, conceitualizando-os, não os memorizando.
O método peer instruction passa por questionamento, pensamento, respostas individuais, discussão entre pares, segunda resposta e, em seguida, a explanação do professor. Para monitorar as respostas dos estudantes, Mazur utiliza um clicker conectado ao seu computador, podendo acompanhar as respostas individuais ou em grupo e pensar quais os melhores encaminhamentos para explanar a respeito do problema apresentado aos estudantes. Após detectar quais são as eventuais dificuldades de conceituação pelos estudantes é que se faz a intervenção do professor.
Peer instruction é um processo ativo, de interação, exigindo a participação ativa dos estudantes. O papel do professor é ser mediador do processo de aprendizagem. Estudante avalia sua aprendizagem. Inovar também pode significar errar, arriscar. Pelo erro em sala de aula o estudante pode ter feedback quanto ao seu aprendizado. Aprender com fracassos. Não apenas “regurgitar” conteúdos de forma aleatória, sem compreensão nem contextualização. Peer instruction é um método que visa à resolução de problemas levando em consideração o raciocínio e não a simples memorização. Resolução de problemas em pares; interação entre estudantes. Não aprendemos a tocar piano apenas observando um pianista tocar! Um estudante não aprende apenas ouvindo seu professor falar. Precisamos repensar a maneira de avaliar nossos estudantes da Educação Superior.
As contribuições de Mazur e seu grupo, relatadas acima, são interessantes porque os estudantes tornam-se mais ativos no processo de aprendizagem e o professor deixa de ser mero expositor de conteúdos para ser o mediador do processo de ensino e aprendizagem. Partindo de problematizações, os estudantes em pares podem buscar a resolução do problema e, assim, aprender de forma significativa, numa prática contextualizada. Espero que de alguma forma os docentes e estudantes da Educação Superior possam aplicar o método peer instruction para avaliar se haverá melhorias no nível de desempenho e maior interação em sala de aula.
Sites relacionados:
www.laspau.harvard.edu/idia
www.turningtechnologies.com
www.mazur.harvard.edu
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