Cabe o gestor de IES olhar para o seu entorno ou para o mundo? Qual o foco do aprendizado?
Fábio Reis
Participei nos últimos anos de diversas conversas sobre qual deve ser o olhar privilegiado do gestor de IES: local ou global? Eu também presenciei discussões sobre o foco do aprendizado do gestor. Acredito que essas discussões perderam o sentido, em um contexto de internacionalização. Cada vez mais estou convencido de que esse tipo de debate demonstra falta de clareza sobre a dinâmica da educação superior.
Obviamente, o gestor tem de ter conhecer, antes de tudo, a missão, a visão e os objetivos da IES em que trabalha. O bom gestor é capaz de implementar o projeto institucional, antecipar-se às macro tendências, projetar o futuro da instituição, estimular as pessoas e as equipes de trabalho e colaborar com a sustentabilidade institucional.
Em relação ao ambiente regional e nacional, o bom gestor sabe analisar seus concorrentes, interage com os stakeholders da região, estabelece uma rede de relacionamento com pessoas que formam opinião, estimula programas de ensino, pesquisa e extensão que tenham impacto regional e nacional. Além disso, conhece a legislação, os parâmetros de qualidade e a dinâmica da educação superior, o que permite análises e projeções.
Todas as exigências apontadas acima talvez indiquem o perfil de um super gestor de uma IES de médio ou grande porte, de relevância e impacto acadêmico. Entretanto, ao escrever o perfil acima, não projetei um super gestor, de uma super IES. Acredito que esse é o perfil básico. Os headhunters deveriam começar a “caçar” os gestores a partir desses princípios, que indicam a capacidade de atuar no ambiente regional e nacional.
E o ambiente global? É comum utilizarmos o termo globalização ou internacionalização em nossos discursos. Gostamos de falar: “o mundo é globalizado”, “no Brasil há vários investidores estrangeiros atuando no mercado educacional”, “há uma experiência de EAD em Monterrey”, “Harvard, MIT ou Stanford estão utilizando novas tecnologias de ensino”, “há uma experiência de marketing ou de inclusão em tal lugar” ou “tal IES fez parceria com tal IES de tal país”. Os temas globais estão presentes em nossas falas cotidianas. Já ouvi frases semelhantes a essas, em diversas conversas.
O fato estranho é que há gestores que ainda insistem em olharem para o próprio umbigo. A preocupação quase exclusiva é com o cotidiano da IES ou com as ações do concorrente mais próximo. Há gestores que se preocupam demasiadamente com as compras e vendas de IES, em nosso mercado educacional. É obvio que isso é importante. Entretanto faço uma pergunta para esses gestores: O que os senhores estão fazendo de diferente? Cabe também a seguinte pergunta: Como podemos fazer algo diferente se não conhecemos as boas experiências nacionais e internacionais?
Os melhores gestores são aqueles que conhecem os cases próximos a sua realidade, mas também são aqueles que estão abertos para conhecer o mundo e as melhores experiências internacionais. Em função da dinâmica da educação superior, o gestor terá de ser capaz de conhecer o mundo da educação e os cases de sucesso.
Provavelmente muita gente pode pensar que MIT ou Harvard são instituições que não servem de parâmetro, não em função da qualidade, mas porque possuem um perfil de estudante e de recursos financeiros e tecnológicos impensáveis para a nossa realidade. Penso justamente o contrário. Quem definiu que os bons resultados dependem do perfil dos estudantes e dos recursos financeiros de uma IES? Gostaria de conhecer os fundamentos teóricos e práticos dessa tese.
No dia 19 de fevereiro, a revista Veja publicou uma reportagem sobre a Escola de Negócios e Empreendedorismo de MIT. O que a reportagem demonstra é que para um IES implementar a cultura empreendedora é preciso mudanças na metodologia de ensino, especialmente, no que se refere à necessidade de aliar a teoria com a prática e à necessidade de preparar o estudante para o mundo em que vivemos. Qual a mágica? Não há mágica.
A resposta pode ser: a capacidade de pensar, planejar, implementar e de contar com um grupo de professores engajados pode tornar uma IES empreendedora. Um gestor pode perguntar: Como fazer isso, se os meus professores não possuem esse perfil, não possuem tempo e não estão preparados? A reposta pode ser outra pergunta: O que o senhor investe na capacitação das pessoas de sua IES?
A revista Exame, edição 1010 de 22 de fevereiro de 2012, publicou uma reportagem sobre “O MIT no poder”, que analisa a capacidade de MIT em formar alguns dos homens mais poderosos da economia mundial. O que faz a universidade? Novamente, a experiência prática, a análise do mercado, o contato com as pessoas influentes e com a realidade econômica, entre outras ações, são “diferenciais” No Brasil, a maioria das escolas de economia não formam os homens mais influentes, entretanto, uma escola compromissada com a formação precisa saber como se formam bons economistas.
Quanto custa proporcionar experiência prática em uma IES que tenha curso de economia no interior de uma cidade do nordeste? A experiência pode nascer do contato com o contador do escritório mais próximo ou do contato com as pessoas responsáveis pela dinâmica econômica da região.
Da mesma forma, Harvard ou uma IES de outro país podem estar desenvolvendo soluções acadêmicas de nosso interesse. O mundo é plano, como escreveu Thomas Fridman em seu livro, em 2005. Não é verdade que a experiência de uma IES de grande porte não serve de parâmetro.
É obvio que devemos buscar cases e situações próximas a nossa realidade. É obvio que podemos e devemos buscar alianças com IES que tenham o perfil, o tamanho e o projeto institucional semelhante ao da nossa instituição. Entretanto, temos que aprender que “uma coisa não exclui a outra”.
A dinâmica do século XXI ensina-nos que a rapidez das informações e da produção do conhecimento estão desconstruindo algumas verdades da educação. A crise de nossas IES pode ser explicada também pela nossa incapacidade de perceber que a perspectiva da educação superior é outra.
Espero que possamos superar a discussão sobre o olhar do gestor. A atuação é regional e nacional, mas a perspectiva tem que ser ampla. Os melhores gestores possuem a capacidade de compreender o ambiente global da educação superior. O foco do aprendizado é nacional e internacional.
As melhores IES tendem a atuar em rede e a estimular a cooperação para o aprendizado institucional. As melhores IES, provavelmente, vão disputar os melhores gestores. Poderá ocorrer uma guerra por talentos, assim como acontece nas grandes empresas, pois o ambiente da educação superior será cada vez mais global no que se refere aos avanços da economia da educação e internacional, no que se refere às alianças, mobilidade, aprendizado e cooperação.
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