Panorama da Educação Superior Na China
Prof. Hector Edmundo Huanay Escobar
Universidade São Francisco
A educação superior na China tem várias peculiaridades que fazem dela um sistema muito especial. Em primeiro lugar, trata-se do país mais populoso do mundo com mais de 1.3 bilhões de habitantes. Existem na China mais de 30 milhões de estudantes em todo o sistema de educação superior e de acordo com dados publicados pela Unesco, em 2008, o país conta com mais de 1.6 milhões docentes. Além disso, há de se considerar que o fato de possuir 56 grupos étnicos diferentes provoca uma enorme diversidade dentro país, tanto em termos culturais, como em desenvolvimento econômico e educacional.
Historicamente a civilização chinesa deu um alto valor à educação. Desde a época de Confúcio (551-479 Antes de Cristo) se difundiu na China a ideia de que as nomeações no Estado deveriam considerar o mérito e a habilidade dos candidatos, medidos através de certa avaliação, por cima da sua origem. Dentro das suas possibilidades, as famílias faziam um esforço por prover aos seus filhos uma educação clássica. Este esforço milenar perdurou por muitos séculos não sendo diferente nos dias de hoje em que inúmeras famílias destinam a maior parte da sua renda para permitir o acesso a uma boa educação para seus filhos. Outro aspecto a considerar é que devido à política do governo chinês de não permitir mais de um filho por casal, o mapa familiar faz com que uma família típica conste de dois pais e quatro avós que (entre todos eles) poupam para financiar os estudos e utilizam parte importante de seu tempo para melhorar a formação do pequeno herdeiro.
Para uma melhor compreensão do atual sistema de educação superior da China é necessário fazer um breve relato da sua evolução nos últimos 60 anos, quando se inicia, de fato, uma transformação política e socioeconômica no país com a vitória da Revolução Comunista liderada por Mao Tse Tung.
Em 1949, na Era Pós Revolução Chinesa (1949-1966), o governo da República Popular da China decidiu que o país iria montar seu sistema de educação superior inspirando-se e aproveitando a experiência da antiga União Soviética. Assim, seguindo a orientação da época em que o destino do país era definido no âmbito dos planos quinquenais de uma economia centralmente planificada, as universidades foram desmanteladas e sistematicamente prejudicadas para seguirem um modelo em que predominavam os interesses políticos aos acadêmico-científicos.
Posteriormente, no período chamado de Revolução Cultural (1967-1978) a economia foi fortemente afetada e o sistema de ensino superior devastado. Depois de 1970, algumas instituições de ensino superior começaram a admitir estudantes trabalhadores, camponeses e-soldados com base em critérios políticos, tais como antecedentes familiares, lealdade política, vínculo com o Partido Comunista Chinês e desempenho no trabalho, entre outros. A qualidade do ensino piorou e o número de alunos diminuiu drasticamente. O total de matrículas caiu de 674.400 em 1965 para 47.800 em 1970, resultando em uma grande escassez de mão de obra qualificada para a economia.
Para compreender o que ocorre hoje nas universidades chinesas é fundamental analisar a situação que viveu o país nos últimos 30 anos. Desde 1978, quando Deng Xiaoping assumiu definitivamente o controle do partido comunista e do Governo, a China iniciou o que tem se chamado da época da Reforma e Abertura. Com o pragmatismo como guia ideológica e focada em avançar ao capitalismo e à abertura ao mundo, a China viveu nessas últimas três décadas uma verdadeira transformação. As reformas iniciadas em 1978 trouxeram um crescimento econômico notável e afetaram profundamente muitos aspectos da sociedade e da vida das pessoas nesse país. Um dos setores em que esta mudança do modelo chinês provocou grande relevância foi no Ensino Superior.
Na chamada Nova Era, que se inicia em 1978 e vai até os dias de hoje, reformas iniciadas neste momento estabeleceram o atual sistema de ensino superior chinês. O Gaokao foi restaurado, marcando o retorno de critérios de admissão com base em méritos acadêmicos, ao invés de aspectos políticos.
O Gaokao é o nome dado ao Exame do Vestibular. O exame nacional é realizado nas mesmas datas todo ano: 7 e 8 de junho – em algumas regiões, também no dia 9 – e mobiliza todo o país. Apesar de seu caráter nacional, o vestibular chinês não tem, desde 2003, provas idênticas em todo o território. Dezesseis regiões, de um total de 32, elaboram seus próprios testes, seguindo orientações dadas pelo Ministério da Educação. Os responsáveis pela elaboração dos testes ficam isolados durante um mês antes da realização do Gaokao e estão sujeitos a pena de sete anos de prisão caso revelem o conteúdo da prova a algum candidato ou a terceiros. Estudantes pegos colando no Gaokao ficam proibidos de fazer o exame por um período de 1 a 3 anos. As autoridades também registram o fato no prontuário do vestibulando, que o acompanhará por toda a vida. Anualmente, em torno de dez milhões de alunos se candidatam a uma vaga no ensino superior no Gaokao. A competição para ingressar às melhores universidades públicas é ainda mais acirrada e só podem tornar-se alunos nessas instituições, entre 10 e 20% dos candidatos.
Atualmente, o Gaokao encontra-se em um processo de reforma cujo objetivo é dar maiores opções aos alunos, fazer a educação mais flexível e diminuir a grande pressão que é exercida sobre os estudantes. Estas reformas devem estar implantadas em todas as regiões da China até 2013.
Algumas das ações que marcaram a nova política da educação superior durante esta época incluem o estabelecimento formal do sistema de graus moderno, a autorização para a participação de instituições privadas e, a proibição da prática de alocação de trabalho para graduados. Com efeito, a China realizou, a partir dos anos 80, mudanças estruturais em todo o seu sistema educacional. Os alunos passaram a pagar uma taxa para estudar nas universidades públicas do país que representa mais de 30% do orçamento para o ensino superior, houve grandes investimentos em cursos à distância – principalmente focando o meio rural – e aumentaram o investimento em pesquisa científica e inovação.
Na China, a educação se desenvolve em quatro níveis: ensino básico, ensino de graduação, mestrado e doutorado. Embora o crescimento do número de estudantes tenha sido expressivo, a nível nacional, apenas cerca de 20% dos alunos que saem do ensino médio têm acesso à educação superior, diferente das grandes cidades, onde este índice pode alcançar 60 ou 70%. De qualquer forma, pode-se observar que ao longo dos últimos vinte anos a universidade na China está evoluindo e se transformando em um instrumento educacional generalizado como pode ser constatado, por exemplo, no incremento do percentual de estudantes universitários entre 18 e 22 anos que passou de 4% em 1990 para 22% em 2005.
Nos últimos anos, o Estado promoveu a expansão da educação superior. Como resultado, as universidades tiveram um aumento no número de vagas, o que gerou um crescimento espetacular do número de estudantes universitários. Se no ano de 1998 o número de matrículas na graduação era de pouco mais de cinco milhões, em 2004 ultrapassou os vinte milhões e em 2009 superou a marca de trinta milhões de alunos (gráfico 1).
Gráfico 1
China: Evolução do número de estudantes de graduação (1988-2008)
Fonte: Kai Yu (2011) Higher Education in China. Shanghai Jiao Tong University.
No ano de 1998, o então presidente da China, Jiang Zemin, que governou o país de 1993 a 2003, desenhou um ambicioso plano de melhoria do sistema de educação superior que trouxe excelentes frutos para o país. Em apenas dez anos quintuplicou-se o número de estudantes universitários e o número de universidades chinesas passou de 1.022 em 1998 para 2.305 em 2009 (gráfico 2).
Gráfico 2
China: Evolução do número de IES (1978-2009)
Fonte: Kai Yu (2011) Higher Education in China. Shanghai Jiao Tong University.
Outro aspecto relevante da educação superior na China é questão da inserção internacional dos seus alunos, docentes e pesquisadores. O governo, as universidades e as famílias chinesas dão uma especial importância à formação superior no exterior, aos intercâmbios estudantis e às atividades de cooperação internacional que vem aumentando a cada ano. De fato, de acordo com o relatório da UNESCO, a China é o país com maior número de estudantes matriculados em instituições de educação superior não nacionais. Em 2008, por exemplo, a China possuía 441 mil estudantes universitários no exterior; a Índia, 170 mil e Coreia do Sul, 113 mil. No mesmo relatório, a UNESCO permite comparar os números de outros países como: Estados Unidos, 51 mil; México, 26 mil; Brasil, 23 mil e Argentina, 9 mil. Os destinos preferidos dos estudantes chineses são: Estados Unidos (110.246), Japão (77.916), Austrália (57.596) Reino Unido (45.356), e Coreia do Sul (30.552).
Uma estratégia utilizada pela China para fortalecer a Educação Superior do país tem sido a de trazer de volta muitos dos talentos científicos que, após realizarem seus doutorados em universidades de prestígio acadêmico dos Estados Unidos, Europa e outros países da Ásia, têm sido “repatriados” e atraídos por salários e benefícios bastante competitivos para a realidade chinesa. Aliado a isto e à possibilidade de estarem perto das suas famílias sendo, inclusive, reconhecidos pelo prestígio que hoje conta a comunidade científica, as universidades chinesas proporcionam a estes novos docentes recursos financeiros, humanos, tecnológicos e de infraestrutura, além da liberdade para trabalharem nas linhas de pesquisa estabelecidas para alcançarem um bom desempenho nos rankings internacionais.
Da mesma forma, é possível verificar que tem aumentado de ano em ano a quantidade de estrangeiros que estudam na China. De fato, enquanto no ano de 2005 existiam 30.451 estrangeiros matriculados em cursos de graduação das universidades chinesas, em 2008, no ano olímpico, ascenderam a 51.038. Este crescimento também é observado nos alunos estrangeiros que realizam cursos de Pós-Graduação. Em 2005 existiam 5.935 alunos realizando programas de mestrado ou doutorado e este número passou para 10.743 em 2008. Mas tudo isto tem sido também resultado do prestígio que as universidades chinesas têm obtido pelas suas colocações nos principais rankings mundiais que avaliam a qualidade acadêmica.
Outra característica da educação superior na China, que vale destacar é a que diz respeito à seleção, por parte dos alunos, do curso de graduação que eles pretendem estudar. Diferente do que ocorre no Brasil onde uma grande parcela dos alunos opta por estudar carreiras nas áreas das Ciências Sociais Aplicadas (Administração, Direito, Pedagogia, etc.), a própria dinâmica econômica da China e o interesse dos jovens estudantes chineses por se inserirem no mercado de trabalho, os levam a preferirem estudar cursos nas áreas de Engenharia. De acordo com o Global Education Digest publicado em 2010 pela Unesco, enquanto no Brasil a escolha dos jovens pelas áreas de Ciências e Engenharias não superava os 12%, os cursos destas áreas na China representavam 33% dos alunos de graduação.
Com o interesse estratégico do país de transformar e modernizar sua economia e permitir que suas empresas, produtos e profissionais estejam em condições de competir no mercado internacional, há uma exigência cada vez maior para o aprendizado de outras línguas, principalmente do inglês. Dessa forma, é obrigatório nas escolas o ensino do inglês desde os nove anos e esta matéria integra a avaliação do Gaokao.
Uma medida para fomentar o crescimento da educação superior consistiu na abertura do setor à inciativa privada, fato inédito até a década anterior. Atualmente, há no país, entre instituições privadas e públicas, 2.305 universidades que possibilitam o ingresso anual a mais de 600 mil universitários.
Outro aspecto recente do Ensino Superior na China está relacionado ao processo de abertura desse mercado para instituições estrangeiras. Da mesma forma que existe em outros segmentos da economia, onde a presença de empresas estrangeiras serve como uma forma de abreviar o processo de desenvolvimento tecnológico mediante a transferência de tecnologia ou mesmo aprendizagem tecnológica, na China do século XXI é possível encontrar a oferta de cursos de graduação de universidades estrangeiras instaladas nas principais cidades do país. A forma de atuação destas instituições não difere do modelo tradicional chinês de investimento estrangeiro que exige a participação de um parceiro local. Vale ressaltar que, embora haja a figura deste parceiro local, de fato, o gerenciamento acadêmico e administrativo da instituição é feito, fundamentalmente, pelo sócio externo.
O marco regulatório para esta modalidade de parceria foi promulgada em 2003. Estas normas tratam sobre a cooperação sino-estrangeira em escolas (Regulations of the People’s Republic of China on Chinese – Foreign Cooperation in Running Schools), que permitem a instituições educativas estrangeiras cooperar com instituições chinesas, nos níveis da educação superior e formação profissional sob a forma de joint-ventures ou cooperação através de intercâmbios educacionais.
Em termos de número e tamanho, é verdadeiramente impressionante o crescimento da presença estrangeira no ensino superior. De acordo com Chung (2011), dados do Ministério da Educação do mês de abril do mesmo ano informavam que existiam na China um total de 36 instituições de ensino oferecendo 392 cursos de graduação e 142 programas de pós-graduação. Esta oferta de cursos encontra-se espalhada pela China inteira, exceto a província de Qinghai e as regiões autônomas do Tibet e Xingjiang. No que diz respeito à origem dos parceiros estrangeiros, instituições de ensino superior de 25 países e regiões de continentes diferentes estão envolvidas em várias formas de colaboração com seus homólogos na China, dentre os quais: Reino Unido, Austrália, EUA, Canadá, Alemanha, Rússia, Irlanda, Nova Zelândia, França, Coréia do Sul, Hong Kong, Japão e Taiwan.
Tudo isto tem sido resultado de duas importantes medidas de política educacional promovidas pelo estado no âmbito dos conhecidos Planos Quinquenais. A primeira iniciativa foi denominada Projeto 211, que tinha como objetivo possibilitar que as cem principais universidades da China alcançassem os padrões acadêmicos (de qualidade e produção científica) das melhores instituições estrangeiras.
A segunda medida, lançada durante o centenário da Universidade de Pequim em maio de 1998, quando o então presidente da China declarou que o país deveria contar com várias universidades de classe mundial, foi denominado Projeto 985, formulado especialmente para a construção de universidades de classe mundial na China. A intenção é desenvolver doze universidades de elite comparáveis às melhores universidades do planeta.
Fica evidente que a China está com os olhos no futuro. Sua obsessão e seu pragmatismo giram em torno de como serem mais competitivos, como obterem uma maior participação na economia mundial, reduzirem a pobreza e elevarem o nível de vida dos seus habitantes. Percebe-se que eles querem sair da condição de ser a “Fábrica Mundial” para ser um dos protagonistas da inovação nessa nova era da economia do conhecimento. Para alcançar este objetivo vem investindo de maneira inteligente e seletiva seus recursos na educação.
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