Fatores que podem incidir na competitividade da IES

Em abril, escrevi que os gestores universitários tinham que prestar atenção em quatro temas. Eu os considero relevantes e provavelmente devem influenciar o ambiente do ensino superior nos próximos anos. Os temas indicados foram: a) inovação acadêmica; b) empreendedorismo; c) cooperação nacional e internacional; d) identidade institucional. Quero acrescentar aos quatro temas, outros três: empregabilidade de egressos, capacidade de inovação e investimento em produção científica, que posteriormente serão abordados.

Retomo as discussões dos quatro temas originais. Tornou-se repetitivo a afirmação de que trabalhamos em nossas IES com um modelo de ensino que não está adequado para o perfil de estudante que temos em sala de aula, que a tecnologia permite a experimentação de novos métodos, que o professor precisa utilizar recursos de EAD ou semipresencial, que o modelo dos nossos  currículos estão defasados para uma realidade cada vez mais interdisciplinar e multidisciplinar, que o modelo de organização das salas de aula são ultrapassados. Se as afirmações são repetitivas, porque continuamos a “fazer o mais do mesmo”? Falta estratégia, ousadia ou conhecimento do como fazer? Para responder, talvez tenhamos que fazer uma análise que contemple um mix dos três fatores. Eu acredito que as IES que não enfrentarem o desafio de buscarem soluções para a inovação acadêmica perderão o “bonde da história”.

No que se refere ao empreendedorismo, percebe-se que há IES como FGV, IBMEC, SENAC, INSPER, MACKENZIE, ESPM e algumas PUCs, além de algumas federais e da USP, UNICAMP e UNESP que estão investindo para que o empreendedorismo fortaleça-se em alguns setores e cursos ou que seja perceptível na instituição. O empreendedorismo pode ser algo da cultura institucional ou uma atividade de um centro ou dos cursos de graduação e pós-graduação.  Babson College é uma referência mundial, quando pensamos no empreendedorismo institucional e no empreendedorismo no ensino. O fato é que instituições empreendedoras são mais inovadoras e possuem capacidade de agregar valor na formação dos estudantes, além de colaborarem com a dinâmica da sociedade e da economia, via geração de novos produtos e serviços. IES empreendedoras tendem a ter líderes despojados e capazes de fazerem as mudanças, quando são necessárias.

As redes de cooperação estão cada vez mais intensas. As IES brasileiras pouco a pouco estão olhando para o mundo. É cada vez mais comum delegações de outros países visitarem o Brasil. Por outro lado, as missões de gestores brasileiros para outros países tem-se intensificado. A cooperação não é unicamente mobilidade de professores e alunos. Pode acontecer um processo de cooperação via troca de experiência, mesmo que seja online, ou em uma visita técnica pontual. Às vezes, podemos participar de uma ou duas redes, mas não podemos ficar de fora das redes. Não participar de processos de cooperação é negar a globalização, é negar que o mundo multicultural e que as pessoas estão conectadas, é negar que possa haver aprendizado institucional via conhecimento da experiência de outra IES.

Da mesma forma, o diálogo entre as IES no Brasil devem se intensificar. Há muito gestor interessado na troca de experiência nacional. Há muito gestor interessado em ajudar e dialogar.

No que se refere à identidade, o foco deve estar em  sua institucionalização. É um erro grave não conhecer os valores institucionais. Nós gestores temos clareza dos propósitos da nossa instituição? A IES foi fundada para quê? Serve a quem? Qual a “personalidade” da instituição? Eu não tenho dúvida de que há um crise de identidade. Muitos gestores provavelmente não sabem o que querem da IES, por isso, a gestão é feita no dia a dia. Institucionalizar a identidade é um caminho para que as pessoas conheçam a vocação da IES e tornem-se mais engajados em suas estratégias.

Ao elencar os quatro temas, muitos podem perguntar: E a sustentabilidade financeira? E a evasão? E a taxa de ocupação das salas de aula? E o Ebitida? E os resultados acadêmicos? É obvio que reconheço todos esses temas como essenciais e estratégicos. Não é possível falar em investimento no empreendedorismo se não houver sustentabilidade financeira. O fato é que esses temas são comuns, são do nosso dia a dia. Uma IES financeiramente sustentável, mas que pouco inova na academia, que não foca em novos produtos e serviços e que não tem estratégias de cooperação, até pode conseguir remunerar seus mantenedores e acionistas, mas dificilmente irá colaborar com a formação acadêmica sintonizada com as demandas do século XXI. Como o nosso ambiente é competitivo, será preciso ir além dos temas que já são comuns. Não se discute, é preciso combater a evasão e cuidar da sustentabilidade financeira. Todavia, isso, de fato, torna a IES realmente competitiva e agrega-lhe valor?

Estilo de governança e gestão da Universidade de Warwick

No dia 20 de setembro, no 14o FNESP, acontecerá a palestra do senhor Koen Lamberts, “Deputy Vice-Chancellor” da Universidade de Warwick. O tema será:  “Como transformar a sua IES em uma instituição empreendedora”. É provável que muitos gestores do Brasil não conheçam a experiência da universidade. A palestra será uma oportunidade para que possamos interagir com um representante de uma instituição que reorganizou seu modelo de governança e gestão.

A Universidade de Warwick iniciou suas atividades em 1965, com 450 estudantes de graduação. Está localizada no município de Conventry, que fica a 150 km de Londres.  É uma instituição pública, com anuidades a partir de 3,375 libras, para estudantes britânicos, e 12.325 libras, para estudantes que não são da comunidade europeia.

Para os dirigentes públicos e privados do Brasil, entender o modelo de governança e gestão das universidades britânicas não é fácil, pois os parâmetros de organização das universidades são diferentes. Uma universidade pública pode cobrar anuidades, estabelecer contratos com o setor produtivo, comercializar serviços e fazer negócios. O contrato com os dirigentes e professores também não garantem a estabilidade do emprego, algo que a legislação brasileira garante. Os gestores e os professores são cobrados por resultados administrativos e acadêmicos.

Em 2010, Warwick tinha 22,648 estudantes sendo que 6.088 eram estrangeiros. A instituição declara em sua visão estratégica que até 2015 quer tornar-se uma “world-class university” e firmar-se entre as 50 melhores universidades do mundo. Segundo o ranking da Times Higher Education de 2011, Warwick está em 157oº lugar.

A universidade definiu em seu planejamento estratégico que será uma instituição com vínculos com os stakeholders, em especial com os setores de negócios e indústria, que irá  incentivar o empreendedorismo, o espírito inovativo, o rigor acadêmico de seus cursos e o foco em métodos de ensino que privilegiem a experiência dos estudantes, a excelência na pesquisa e no ensino, a sustentabilidade financeira, a internacionalização e a cooperação com a região em que está inserida e com Reino Unido, nas dimensões  acadêmica, cultural e econômica. Houve críticas ao modelo de governo da universidade, que na interpretação tradicional, Warwick poderia “perder a alma da universidade”.

Foi durante o mandato de Sir Brian Follett, como Vice-Chanceler (1992-2000), que as mudança no estilo de governança e o avanço do espírito empreendedor foram mais evidentes. A universidade tornou-se um case de sucesso internacional nos estudos de Burton Clark. Ele pesquisou instituições empreendedoras e estilos de boa governança. Clark estudou Warwick nos livros “Creating Entrepreneurial Universities” e “Sustaining Change in Universities”.

Micheal Shattock, que participou do grupo de governo de Sir. Brian, declara que, para universidade, a “melhor defesa é o ataque” e, por isso, foi preciso assumir riscos. Para Shattock, a ousadia de Warwick tornou-a um modelo contemporâneo de universidade, que adotou atitudes como: a) reforço da gestão administrativa e qualificação da liderança; b) incentivo a todos setores da universidade para que assumam atitudes empreendedoras  e ofereçam  serviços educacionais e programas de extensão; c) estímulo ao coração acadêmico, para que os professores organizem novos empreendimentos e relacionamentos com o setores produtivos; d) mentalidade empresarial que integre a universidade com os as empresas e fomente a produção de conhecimento, e) busca de novas formas de financiamento para viabilizar a sustentabilidade e as pesquisas.

Nas universidades britânicas, o Vice-Chanceler ocupa uma função estratégica. Ele é o responsável pelos resultados acadêmicos e administrativos e deve garantir a eficiência financeira da instituição. São exigidas das pessoas que ocupam a função habilidades como: atitude empreendedora, visão estratégica, contínuo relacionamento com as instituições públicas e privadas, captação de recursos, capacidade de liderança e tolerância, de implementação do projeto institucional e da metas institucionais.

A ousadia dos dirigentes de Warwick não é comum quando temos como referência o estilo de governança das universidades europeias e latino americanas. Para Sir. Brian, era necessário estimular o coração acadêmico e a receita era simples: “incentivar todos os setores da universidade para olhar para fora, para possíveis oportunidades e estabelecer participação nos lucros”. Os dirigentes deveriam estimular “cada setor para maximizar o volume dos negócios, criar mecanismos de gestão que não confundem virtudes acadêmicas com virtudes financeiras”.

A universidade tem uma estrutura para atender alunos, professores e visitantes. Há lojas, supermercados, bancos, lavanderias, salão de cabeleireiros, agências de viagens, cafeterias, restaurantes, bares, centros de esportes e entretenimento durante as noites, como cinemas, teatros e concertos de músicas. As residências de estudantes estão próximas às salas de leitura, laboratórios de informática e bibliotecas.

O modelo de governança privilegia a liderança profissionalizada, o planejamento estratégico e um conjunto de indicadores que garantem a transparência da gestão. A universidade de Warwick tem um código de prática de governança corporativa que pode ser referência para as universidades brasileiras.

A instituição é pública e inglesa, todavia, podemos apreender com a ousadia das mudanças realizadas em Warwick. Como podemos estimular o coração acadêmico de nossas IES? Como podemos maximizar os nossos negócios? Há questões que o senhor Koen Lamberts poderá nos ajudar a responder.

Max Gehringer e a formação de pessoas empreendedoras

A sessão “Como uma IES pode formar empreendedores para o mercado de trabalho?”, do 14o FNESP, contará com a participação do colunista da Rádio CBN e TV Globo, Max Gehringer.

Um dos mais renomados especialistas em carreiras, lideranças, comportamento, formação de empreendedorismo e gestão de pessoas, do Brasil, os comentários de Gehringer na Rádio CBN, no programa Fantástico, da Rede Globo e seus livros publicados tornaram-se referência para todos aqueles que buscam conselhos, conhecimento, experiências práticas e relatos de casos de sucesso sobre essas temáticas. Sem dúvida, as dicas de Max Gehringer contribuem para a formação pessoal e aprendizado organizacional – cada vez mais reconhecidos pelos gestores das IES como assuntos estratégicos nesses processos.

O tema da palestra de Gehringer está sintonizado com as discussões contemporâneas dos bons gestores de IES, no Brasil. É evidente que os nossos centros universitários devem continuar a formar pessoas para o funcionalismo público e para o mercado de trabalho, da iniciativa privada. Todavia, a formação para a inovação, bem como para a abertura de novos negócios e serviços tornou-se uma necessidade global, em que as oportunidades de negócios são inúmeras e cada vez mais o emprego tradicional, de carteira assinada, não avança de forma significativa.

Via fomento do empreendedorismo, nossas IES podem fortalecer o surgimento de novos produtos e serviços. Assim, é muito comum verificarmos nas instituições em que a cultura empreendedora está institucionalizada, o surgimento de empresas constituídas por alunos. É recorrente também ouvirmos e lermos histórias de casos de sucesso de empresas que surgiram em salas de aula, centros de pesquisa ou, ainda, do fomento do empreendedorismo e da busca pela inovação.

A edição de julho da revista Ensino Superior publicou uma reportagem sobre empreendedorismo, de título “Caminhos para a formação” e que indicou que as IES precisam inovar na formação universitária e fazer com que os estudantes tenham experiência prática.

Gestores que não tenham efetivamente um plano de articulação com os seus empregadores e que não compreendam qual o perfil de profissional que almejam contratar, dificilmente terão sucesso nos quesitos de inovação e formação de pessoas.

Implementar a cultura empreendedora nas IES não significa ter uma disciplina de empreendedorismo nos cursos de administração ou de engenharia. Pelo contrário, é algo que precisa ter incidência no DNA das instituições. Portanto, o tema pode até ser uma das estratégias institucionais, mas o sucesso dependerá do compromisso da liderança e da capacidade de formar e reunir pessoas, as quais acreditem que é preciso assumir riscos, ser proativo, inovar e criar mecanismos de trabalhos colaborativos.

IES empreendedoras possuem líderes empreendedores. Segundo Max Gehringer, o líder é o fim condutor das mudanças. São eles que podem auxiliar no fortalecimento da cultura empreendedora. Para o especialista, não basta ter uma boa ideia, é preciso também ter um bom líder. Muitas IES padecem ou podem padecer em função do estilo de liderança, pois a falta de um líder eficaz, segundo Gehringer, dilui a mensagem da organização e faz com que seus objetivos e metas sejam pulverizados em discursos e práticas, que prejudicam e impedem o crescimento sustentável e o sucesso da organização.

Há chefes soberbos, que se colocam como “donos da verdade”; que temem as boas ideias por parte de seus subordinados; que instigam a intriga. Já outros são centralizadores, que temem o debate. Há ainda os chefes “estrelas”, que pensam que somente eles são capazes de brilhar. Diante desses diferentes perfis, como institucionalizar a cultura empreendedora? Acredito que a missão é quase impossível!

As empresas que não fomentam a cultura empreendedora, a inovação por parte de seus colaboradores e não formam “times de liderança”, capazes de “fazer algo diferente da mesmice”, tendem a ser medíocres.

Max Gehringer, através de sua experiência profissional, contribuirá para a formação dos gestores das IES, com exemplos simples e práticos desses temas. A sua palestra no 14o FNESP será no dia 21 de setembro, às 15h30.

Caro gestor, caso tenha alguma experiência em formação de pessoas empreendedoras para o mercado, por favor, compartilhe conosco.

Ensino superior e formação de pessoas

O Jornal Nacional apresentou uma série de reportagens sobre o apagão de mão de obra qualificada no Brasil. Segundo as reportagens, o Brasil criou entre 2001 e 2010 em torno de 18 milhões de empregos com carteira assinada, o que sinalizou o início de um circulo virtuoso.

Todavia, a criação das vagas deparou-se com um problema grave: a falta de mão de obra qualificada. Segundo os empregadores entrevistados, para preencher uma vaga era necessário em média entrevistar 10 pessoas. Hoje é preciso em média entrevistar 80 pessoas. Há casos em que as vagas não são preenchidas em função dos requisitos exigidos.

Há um descompasso entre as competências e habilidades das pessoas e as qualidades mínimas que o empregador exige. O fato é que há um desencontro entre a escola e o trabalho. As instituições de ensino não acompanharam as necessidades do mercado. Isso acontece em todos os níveis de educação. O Brasil carece de gente preparada, o que é um problema grave se temos a pretensão de continuar com níveis adequados de crescimento da economia.

Não há referências, no mundo, de países que mantiveram seus índices de desenvolvimento sem altos padrões de educação. O crescimento não é sustentável sem ensino qualificado. No dia 14 de agosto, o MEC publicou os resultados do Ideb (Índice de desenvolvimento da Educação Básica) de 2011. Os resultados demonstram que os alunos do ensino médio apresentaram desempenho semelhante aos de 2009, o que aponta uma estagnação.

No que se refere ao ensino superior, a reportagem do Jornal Nacional afirma que houve um avanço da quantidade, mas não da qualidade. A reportagem lançou uma pergunta: que tipo de educação queremos? Não tenho dúvida de que ampliar o acesso foi e continuará sendo uma estratégia, uma vez que os indicadores de matricula no ensino superior no Brasil continuam baixos, quando comparados aos países desenvolvidos.

O repórter José Roberto Burnier entrevista o professor José Pastore da USP. Para Pastore, de um lado, há IES de má qualidade, do outro, há alunos interessados somente no diploma. Essa constatação drástica não pode ser generalizada, quando pensamos no sistema de educação superior. Entretanto, é um problema que precisa ser discutido.

O fato é que as IES precisam assumir o compromisso com a formação qualificada das pessoas. Não podemos admitir, segundo a reportagem, que 38% dos alunos que terminam o ensino superior não estejam plenamente alfabetizados. O ensino superior tem que exercer o seu papel e colaborar com o crescimento sustentável do país.

Sabemos que a sociedade do conhecimento, as novas tecnologias, a mudança do perfil dos estudantes que chegam no ensino superior, as exigências do mercado de trabalho, a sociedade em rede e globalizada requerem mudanças de estratégias por parte dos gestores das IES.

É obvio que termos como expansão, financiamento, evasão e sustentabilidade financeira precisam estar na pauta das estratégias de nossos gestores. Entretanto, há questões que são essenciais. Por exemplo, não combateremos a evasão se não modificarmos as metodologias de ensino e o currículo, se não instigarmos o empreendedorismo e o uso da tecnologia e da inovação. Dificilmente conseguiremos aumentar a empregabilidade de nossos alunos se não dialogarmos com os empregadores. Teremos dificuldades de realizar mudanças estratégicas em nossas IES se o perfil de liderança não for mais empreendedor.

Durante o 14o. FNESP teremos uma mesa de discussão com o tema: “Como fortalecer a relação IES – empresa? A necessidade do diálogo para elaboração de projetos comuns, para a melhoria da qualidade e para a ampliação da empregabilidade”. A discussão irá apresentar o resultado de uma pesquisa realizada na região de Campinas com gestores de IES e empregadores. Será que há sintonia entre o perfil do egresso que formamos e o que as empresas buscam?

A ideia da pesquisa nasceu de uma parceria entre SEMESP e FIESP. A mesa contará com participação de Thiago Pêgas, diretor do SEMESP, Sylvio Alves de Barros Filho, Diretor de Ação Regional da FIESP e Maria Aparecida Toledo, Diretora de Planejamento do Instituto de Pesquisa Toledo e Associados.

Paralelamente, na revista Exame, edição 1020, do mês de julho, há uma reportagem com o título “Nem parece Harvard”. Na revista Você S/A de agosto, há uma reportagem com o título “O Segredo de Babson”. Em ambas as reportagens o tema central é empreendedorismo e inovação, que são os temas centrais do 14º FNESP. Babson College é apresentado como referência mundial na formação de empreendedores e teremos representantes da universidade durante o Fórum.

O SEMESP propõe através do FNESP a discussão de temas contemporâneos, que estarão na pauta de nossas reuniões estratégicas nos próximos anos. As reportagens demonstram que há sintonia entre os temas e as melhores referências do ensino superior. O Fórum cumpre seu papel de informar, formar e proporcionar momentos de discussão dos líderes do ensino superior no Brasil.

Babson College e a cultura empreendedora

No dia 20 de setembro, durante a segunda sessão do 14º FNESP, os participantes contarão com uma mesa de discussão sobre empreendedorismo. Sem dúvida, o tema tornou-se estratégico para as nossas IES.

Os gestores de centros universitários sabem que é preciso fortalecer as atitudes empreendedoras na perspectiva da instituição, bem como na formação de seus estudantes. Pensando nisso, o debate contará com a presença de Flávia Feitosa, Diretora de Pós-Graduação e Extensão do Centro Universitário SENAC e do professor Joel Shulman, do Babson College, dos Estados Unidos.

Flávia Feitosa, do SENAC

Conhecemos e não temos dúvidas de que o SENAC é uma instituição com características empreendedoras e sabemos que Flávia Feitosa irá colaborar para a formação dos participantes, ao relatar sobre a experiência empreendedora desse importante Centro Universitário. Todavia, gostaria de apresentar o Babson College, pois poucos são os que o conhecem no Brasil.

Logo que acessamos a sua página na web (www.babson.edu), nos deparamos com um convite do Babson College para definirmos “o que é empreendedorismo?”. A instituição instiga os que visitam o seu site a participar do debate, demonstrando o seu foco institucional, pois logo nesse primeiro contato com a IES somos estimulados a pensar sobre empreendedorismo. Além de outras palavras e expressões que podem ser encontradas nos diversos campos do site e que remetem ao assunto: ação e atitude; método ativo de aprendizado e ensino; sala de aula como laboratório de experimentação; problemas do mundo real; mudanças de comportamento; foco nos negócios e na sociedade.

É evidente que a cultura empreendedora não é uma intenção transformada em discursos e textos na internet. As pessoas que trabalham em Babson (gestores, professores e colaboradores) sabem que o foco da instituição é a formação de empreendedores. Portanto, a concepção do empreendedorismo não está presente em um, dois ou três projetos, mas sim, na web, nos projetos institucionais e de curso, nos currículos, nos centros de pesquisa e inovação, na formação de pessoas, bem como nas diversas ações que o Babson desenvolve.

A instituição foi fundada em 1919 por Roger Babson e que no seu início contava com 27 estudantes. Em 1972, o Babson College começou a oferecer cursos de formação executiva de empreendedores. Em 1978, fundou o seu primeiro Centro de Estudos de Empreendedorismo e a partir daí, iniciou uma trajetória marcada pela institucionalização da cultura empreendedora.

Joel Shulman, do Babson College

Hoje, Babson conta com cerca de 2 mil estudantes em cursos de graduação e 1.300 alunos em pós-graduação. Na primeira, a anuidade tem um custo aproximado de U$ 58 mil – se considerarmos todos os gastos.   Já a anuidade de um MBA pode chegar a U$ 99 mil – também considerando todos os gastos.

A missão do Babson College é ser uma instituição proeminente de empreendedorismo para o mundo, através da ação, da geração de valor econômico e da criação de valores sociais.  Babson quer, assim, formar líderes empreendedores capazes de criar novos valores econômicos e sociais.

Atualmente a instituição conta com pessoas de 47 países diferentes e 30 estados dos Estados Unidos e que foi responsável pela formação de mais de 35 mil pessoas de diversos lugares do mundo. Babson declara que valoriza a diversidade cultural, a criatividade, o trabalho colaborativo, a inovação e a excelência acadêmica.

Nos rankings que avaliam as melhores IES com foco em empreendedorismo, Babson College está em uma posição de destaque em relação aos cursos de graduação que oferece. É a número 1 no ranking da U.S. News & World Reports, além de ser destaque pelo Financial Times, Bloomberg Businees Week e Wall Street Journal, quando o assunto é MBA sobre empreendedorismo.

A leitura de seu plano estratégico revisado em 2011 indica que o desenho curricular deve privilegiar a ação, a interdisciplinaridade, a experiência como forma de aprendizado e a interação com o mundo real. O Babson College declara que busca formar pessoas capazes de mudar o mundo.

Portanto, o SEMESP acerta ao convidar o professor Joel Shulman, do Babson College, que irá participar da mesa de discussão com Flávia Feitosa e que traz como tema central do debate “Será que temos a perspectiva de que é possível transformar as nossas IES em instituições empreendedoras? Quais são os caminhos para implantar a cultura empreendedora?”.

Os participantes do 14o. FNESP terão a oportunidade de conhecer duas experiências de sucesso: SENAC e Babson College. No caso de Babson, a instituição percorreu o caminho de transformar o universo acadêmico em pró de uma realidade inovadora na formação de pessoas. A IES transformou intenção em realidade. A cultura empreendedora deve estar nos gestores, professores e colaboradores.

ONDE ESTÁ O ORATÓRIO DE VALDOCCO? UM OLHAR SOBRE A IDENTIDADE DAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR SALESIANAS

Marcilene Rodrigues Pereira Bueno, UNISAL[1]

Dom Bosco foi um sacerdote e mestre na Itália do século XIX. Toda a sua vida  e seu ministério sacerdotal dedicou à educação e salvação da juventude, por meio de um singular instrumento chamado Oratório. Para ele, tudo que foi feito para a juventude, foi feito no Oratório. O Oratório manifesta-se como escola, oficina, pátio, capela, paróquia e muitos outros desdobramentos.

Em dois séculos, a obra de Dom Bosco se espalhou por todo mundo em uma multiplicidade de ações e projetos, buscando-se preservar sempre o espírito do Oratório. Inclusive, como uma das mais recentes ações, em 1934, na India, tem início a presença salesiana no ensino superior, como uma novidade no exercício e desenvolvimento da missão educativa desse santo.

No Brasil, Instituições de Ensino Superior, especialmente nesse século, têm proliferado como forma de  democratizar o acesso ao ensino universitário  a milhares de jovens e adultos que, historicamente, ficaram à margem desse nível de educação.  Dentro desse cenário, no ano de 1952, na inspetoria de São Paulo, nasce, em Lorena, a primeira instituição de ensino superior, as Faculdades Salesianas de Filosofia, Ciências e Letras.  Em 1993, os salesianos criaram as Faculdades Integradas, unindo as faculdades salesianas de Lorena, Americana, Campinas e São Paulo. Quatro anos depois, elas formaram o UNISAL – Centro Universitário Salesiano de São Paulo que conta com mais de 8.000 alunos espalhados em 7 campi.

Após, portanto, 60 anos da presença salesiana no ensino superior do Estado de São Paulo, inquieta-nos uma questão nodal: em todo esse processo de desenvolvimento da obra de Dom Bosco, em especial com o surgimento de instituições de ensino superior, onde está o Oratório de Valdocco? Será que, ainda hoje, compreendemos o que foi o Oratório de Dom Bosco?  Conseguimos implementá-lo novamente em nosso contexto? Sabemos ressignificá-lo? Como?

Em busca de um conceito, em última e sintetizadora análise, após leituras da história, podemos afirmar que o oratório está em Dom Bosco; Dom Bosco é o oratório. Ainda que a ideia desse tipo de associação juvenil já existisse na Itália desde o século XVII , em Roma, com São Felipe Néri ou em Milão com outras associações do mesmo estilo e finalidades muito semelhantes “la verdadera novedad en el Oratorio de San Francisco de Sales, era una persona, Don Bosco: ‘um artista de la educación’ maravillosamente dotado para concebir ‘um tipo universal de Oratorio’, que se há vuelto ‘patrimonio común’ em la Iglesia.”[2]

E como se deu esse fato, esse nascimento do Oratório no coração de Dom Bosco para ser, posteriormente, oferecido a todos os homens de todas as nações?  Desde 1841, e por seis anos, Dom Bosco viveu e estudou no Convito (Residência) Eclesiástico em Turim, tendo por diretor espiritual Padre Cafasso. Dom Cafasso levou Dom Bosco às prisões de Turim onde pôde conhecer a situação em que estavam os presos, em sua maioria absoluta jovens, e, assim, ter contato com a enorme miséria humana dos homens.

“Me senti horrorizado al ver una cantidad de muchachos de doce a dieciocho años, sanos, robustos, inteligentes, que estaban allí ociosos, roídos por los insectos  y faltos en absoluto del alimento espiritual y material. Estaban personificados em estos infelices la vergüenza de la pátria, el deshonor de la família y su próprio envilecimiento. Pero qué sorpresa y asombro tuve al constatar que muchos de ellos salían de ese antro com el propósito firme de cambiar su vida y, sin embargo, reincidían fatalmente volviendo a los mismos lugares de reclusión que pocos dias antes habían abandonado.” [3]

            Esse contato com os jovens nas prisões turinesas leva Dom Bosco a se questionar sobre as respostas pastorais que dará ao povo, a partir de sua vocação sacerdotal. Suas inquietações são a respeito do destino daqueles jovens com os quais se encontrou nas prisões: e se eles tivessem fora da prisão quem se interessasse por eles, por seu bem, quem os acompanhassem em sua reinserção social e pudesse instruí-los na religião, será que o número dos que voltam a cometer o crime não diminuiria?

            Um diálogo que tem com Dom Cafasso e relata no “Memórias do Oratório”, a respeito de que destino daria a sua vida, após os anos de estudo no Convito, deixa clara exatamente essa escolha, essa opção preferencial pela juventude, que em Dom Bosco se manifesta:

 “ – Mi propensión es el de entregarme a los jóvenes. Pero, disponga de mi como quiera que yo veré em eso la voluntad de Dios.

- En esto momento, qué cosa sientes em tu corazón, qué se agita em su mente?

- Me parece encontrarme em médio de uma multitud de muchachos que me piden ayuda.”[4]

Foi essa necessidade de estar com os jovens, de ajudá-los no possível e impossível, que direcionou as escolhas pastorais de Dom Bosco. E como ajudá-los? Por meio de um movimento de ir ao encontro desses jovens, de estar com eles, de ouvi-los, acolhê-los e socorrê-los. Por isso, é possível afirmar que o Oratório sempre esteve com Dom Bosco, foi o seu desejo,  a sua opção pela juventude que o fez construir esse estilo de vida chamado Oratório e que levaria consigo por onde quer que ele fosse.

Segundo as narrações históricas de Dom Bosco, seu Oratório terá início em um singular encontro que o santo terá com um jovem chamado Bartolomeu Garelli[5], em uma missa, por ocasião da solenidade da Imaculada Conceição de Maria. O jovem é maltratado por um dos clérigos que estavam encarregados da sacristia; Dom Bosco corre em seu auxílio chamando-o de amigo e, após a missa, dialoga com ele fazendo-lhe perguntas sobre sua vida, sobre seus pais, sobre sua educação religiosa. Percebendo a orfandade, a carência de instrução religiosa que o jovem manifestava, mas, em contrapartida, o desejo de adquiri-la, Dom Bosco se oferece para ensiná-lo. Oferece-se para que comecem imediatamente: “- Cuándo quieres que comencemos nuestro catecismo?/ – Cuando quiera./ – Esta tarde?/ – Sí./ – O,  ahora mismo?/ – Está bien, ahora mismo. Com mucho gusto.” (Memorias del Oratorio, [40], pág. 156)

 Segundo Peraza (2011),

“Teresio Bosco hace uma oportuna observación acerca de la frase ‘ahora mismo’ que, em el diálogo com Garelli, expresa la voluntad resuelta, efectiva e inmediata con la que don Bosco quiere dar respuesta a las urgencias fundamentales de los jóvenes. Se requiere um ‘ahora mismo’ que, partiendo de las necesidades inmediatas más apremiantes, integre progresivamente todos los valores humanos y trascendentes de que hayan menester los destinatarios para la superación de sus limitaciones y condicionamientos deshumanizantes, com la perspectiva, al mismo tiempo, del proceso de su crecimiento integral.” [6]

Ali, na capela do Convito Eclesiástico, a partir do “agora mesmo”, nasceu o Oratório. Por meio de uma atitude de Dom Bosco tem início a sua obra pastoral em favor da juventude. E nas palavras do próprio santo, em Memórias do Oratório [40]: “Así nació nuestro Oratorio el cual, com la bendición del Señor, se fue incrementando tal manera que yo nunca hubiera podido imaginar.”

E por muitos lugares, de forma itinerante por muito tempo e estável ao final, o Oratório caminha com Dom Bosco, é Dom Bosco: seja no Refúgio e no Hospitalito, no cemitério de San Pedro in Vincoli, em Molinos Dora, na Casa Moretta, nos campos Filippi e, enfim, em Valdocco, na casa Pinardi. Onde está Dom Bosco aí está o oratório. É o santo que, diante das necessidades da juventude de sua época, da juventude abandonada, da juventude pobre, da juventude imigrante, da juventude explorada pelos empregadores, da juventude sem instrução religiosa, analfabeta, se desdobra em dar-lhe respostas, atender as suas necessidades. E ainda: oferecer-lhes mais, tudo o que seja possível – jogos, associações religiosas, escolas profissionais, formação musical e artística etc -  para tornar essa juventude melhor, para fazê-la alcançar o sonho de Dom Bosco desde o início, o de tornar cada jovem um bom cristão e um honesto cidadão.

Por esses motivos, não devemos considerar o Oratório como um lugar, com certas características definidas, dedicado à juventude, a fim de que assim o seja chamado. Para o padre Juan Vecchi, o oratório salesiano “Se coloca más em um âmbito humano y social que em uma jurisdicción territorial. Es una opcion por determinados sujetos, antes que uma programación de contenidos y actividades.”[7] O Oratório de Dom Bosco, como afirma Padre Fernando Peraza (2012), é uma iniciativa aberta, como um movimento até os jovens, para encontrá-los ali onde estão física e psicologicamente.

Nisso reside, sem dúvida, a essência do que seja Oratório e todo o seu consequente sucesso. Para Humberto Eco, o Oratório é

“(…) la gran revolución de Don Bosco. Don Bosco la inventa, después la exporta hacia la red de las parroquias y la Acción Católica, pero el núcleo esta ahí,  cuando este genial reformador percibe que la sociedad industrial requiere nuevos modos de agregación, primeramente juvenil  y después adulta, e inventa el oratório salesiano: uma maquina perfecta em la que cada canal de comunicación, del juego a la música, del teatro a la prensa, se realiza em si mismo sobre bases mínimas y es reutilizado y discutido cuando la comunicación llega de fuera. (…)

La genialidad del oratório estriba em que este prescribe a sus frecuentadores um código moral y religioso, pero después acoge también a quien no lo sigue.  En esto sentido, el proyecto Don Bosco embiste a toda la sociedad italiana de la era industrial.” [8]

            O Oratório é, deste modo, a obra essencial de Dom Bosco. Urge, portanto, entre nós, a procura – e caso não o encontremos, a construção – do Oratório de Dom Bosco em nossas instituições de ensino superior. É preciso refletir sobre onde, como e quando nossas atividades na universidade manifestam essa iniciativa do santo, ao mesmo tempo religiosa e secular, uma expressão de caridade pastoral e de solidariedade humana. No espaço da sala de aula, nos grupos de pesquisa, nos laboratórios avançados, nas atividades extracurriculares, nos eventos científicos, nos programas de pós-graduação lato e stricto sensu? Onde está Dom Bosco e seu Oratório? Na formação técnica, profissional e acadêmica dos docentes, na qualidade dos alunos, na dedicação à filantropia? Em tudo, Dom Bosco e seu Oratório devem estar.

            Nas instituições de ensino superior salesianas, temos a oportunidade, por toda a estrutura disponível, de viver o Oratório hoje, sendo um evento de salvação para os jovens. Salvação integral. E tal intento não se realiza a não ser na integralidade da formação. O Oratório não é um conjunto de atividades que se realizam em um tempo livre, mas durante a vida.  A intenção de realizar o Oratório e todo seu movimento dinâmico num tempo livre é uma ideia redutiva e imediatista de Oratório.  Ao contrário, com Dom Bosco, o Oratório propunha um projeto global de crescimento humano e cristão, com seus itinerários para as diversas idades e situações dos jovens. É um Oratório que se faz

“con todos los recursos positivos que puede asimilar del ambiente, de las propias iniciativas y de la variedad de capacidades y energias de los mismos jóvenes,  y de los agentes y colaboradores que involucre para responder  y potencializar sua objetivos y sus actividades.”[9]

            O Oratório nas instituições de ensino superior deve, portanto, estar em todas as salas de aula, nos grupos de pesquisa, nos laboratórios avançados, nas atividades extracurriculares, nos eventos científicos, nos programas de pós-graduação lato e strictu sensu, nas atividades pastorais, nas visitas técnicas, no pátio, nos intervalos, nas orientações de pesquisa, na formação técnica, profissional e acadêmica dos docentes, na qualidade dos alunos, na dedicação à filantropia. Deve estar em cada um dos que lá estão, dos que lá trabalham e estudam. A universidade, para ser o Oratório de Dom Bosco, deve ser um centro de convocação e compromisso.

            E, exatamente por isso, como sempre foi, o ensino superior salesiano pode consolidar-se como

 “um espacio libre para el encuentro y reencuentro social y pedagógico, espontáneo y vital de los jóvenes consigo mismos y con los valores sociales y eclesiales del entorno; y por ello mismo, un observatorio de la realidad juvenil; um sujeto ‘promotor de la conciencia de toda la comunidad circundante para que se involucre’ en sus intereses y problemas, de suerte que aporte lo que le es debido y posible al logro de sus instancias preventivas, de sus ideales y sus metas.”[10]

            Como o Oratório estava em Dom Bosco, acompanhava Dom Bosco, também deve estar em cada um de nós e nos acompanhar entre os jovens, em nossas atividades cotidianas. Requer de nós, efetivamente, uma motivação educativa especial, valores enraizados na boa prática cristã e cidadã.  Nossas instituições de ensino superior devem encarnar a função de um ambiente educativo integral, capaz de oferecer aos jovens, aos seus destinatários, possibilidades de um desenvolvimento completo e harmônico de suas aptidões, a fim de dar uma resposta apropriada a seus interesses.[11] Não nos é permitido trabalhar pela formação de bons profissionais, sem nos esforçarmos também pela formação do bom cristão, do bom cidadão.

            E, de maneira alguma, tal compromisso ou retorno aos valores fundamentais do Oratório de Valdocco nos levará a um distanciamento dos objetivos do ensino superior contemporâneo; muito ao contrário, aprofundará nossa identidade e dará, com positividade, uma resposta à sociedade a respeito de que tipo de educação pretendemos para nossa juventude. A partir da essência do Oratório de Valdocco, sempre se pode desenvolver um novo Oratório, de forma criativa, com maior alcance, graças à capacidade que hoje temos de prestar oportunos e adequados serviços à juventude.

            Como o Oratório de Dom Bosco está em cada um dos atores do ensino superior, em sua mente e ações, ele sempre se mostrará capaz de responder à necessidade dos tempos. Mesmo porque, Dom Bosco, seus sonhos, seus projetos, suas realizações são patrimônios humanos e pertencem a todos aqueles a quem mova a inquietação pelo bem comum e, assim, sejam sensíveis aos problemas do outro e percebam a transformação que pode ocorrer em nossas sociedades a partir da solução desses mesmos problemas em seus contextos específicos.

            Nosso equívoco histórico foi a “institucionalização” do Oratório como um lugar para oferta de serviços pedagógicos e pastorais, afastado do cotidiano do ensino superior, departamentalizado, representado, quando muito, por poucas e esparsas ações, eventos e festas promovidos pelo setor da pastoral. A academia aniquilou o Oratório, reduzindo-o a algumas poucas atividades, menos importantes e relegadas ao segundo plano em vista do arcabouço teórico dos estudos superiores.

            Não é disso que se trata o Oratório. Assim também, não será disso que deverá tratar o ensino superior salesiano, mas sim:

“de hacer, como Oratorio, um camino hacia el límite de la pobreza em donde están los destinatarios histórica y vocacionalmente prioritarios; de mantener despierta y vigilante uma actitud incansable de búsqueda, de acogida, de escucha, de respuesta, de acompañamiento a las interpelaciones de los jóvenes y a las sugerencias e impulsos de la caridad apostólica y educativa; de creer que es posible esa marcha incansable hacia lo que muchas veces nos amenaza de imposible;” [12]

            A ressignificação do Oratório em nossas atividades do ensino superior nisso consiste: numa atitude incansável de busca, de acolhida, de escuta, de resposta, de acompanhamento aos questionamentos da juventude, respaldados em nossa caridade apostólica e educativa. Resta-nos analisar como poderemos fazê-lo, pois o quando é imediato.

            As instituições salesianas de ensino superior, especialmente o UNISAL, animado pela significativa lembrança de seus 60 anos de inserção histórica na sociedade do Estado de São Paulo, portanto, só será Oratório salesiano;

“si em su forma ágil y festiva, habla el lenguaje de los jóvenes y se adecúa a sus instancias y necesidades básicas; si entre sus servicios y propuestas crea una red de comunicación que hace de cada parte y del todo un armonioso proyecto educativo y pastoral, com sus propias normas éticas y religiosos pero, así mismo com la típica abertura y tolerancia ecuménica que caracterizo al primitivo Oratorio de Don Bosco.” [13]

Uma conclusão, a partir do que analisamos, é bastante óbvia: não há experiência essencialmente salesiana, seja ela uma obra social, um colégio, uma universidade ou de qualquer outra natureza, que não necessite, periodicamente, voltar à experiência do Oratório de Valdocco. Foi da humilde semente do Oratório que se desenvolveu tudo o que o espírito salesiano criou e tem criado em favor da juventude.

Nas atuais Constituições (1984) da congregação salesiana há um especial convite para que em constante confronto com aquela experiência original, seja autenticada nossa fidelidade e possamos dar testemunho da missão e vocação de Dom Bosco ao mundo:

“Don Bosco vivió uma típica experiencia pastoral em su primer oratorio, que para los jóvenes fue casa que acoge, parroquia que evangeliza, escuela que encamina hacia la vida, y pátio donde encontrarse como amigos y pasarla bien.

Al cumplir hoy nuestra misión, la experiencia de Valdocco sigue siendo critério permanente de discernimiento y renovación de toda actividad y obra.” (art. 43)

Por fim, ainda que embasados em preliminares leituras e estudos, já é possível afirmar que a identidade de uma instituição salesiana, assim como o é o UNISAL,  de ensino superior, encontra neste mundo oratoriano o seu clima original, sua raiz e sua expressão mais peculiar. Precisamos, urgentemente, analisar, repensar, estruturar nossa instituição a fim de encontrar e propor o Oratório de Valdocco aos nossos jovens. Ele pode já estar em muitas de nossas ações, porém “invisíveis” dentro da complexa estrutura que temos. E, ainda pior do que invisível, mal interpretadas, ou seja, às vezes vivemos o Oratório, mas não o sabemos, não o reconhecemos. Apenas a partir dessa premente e densa reflexão sobre como somos hoje, buscando enxergar o Oratório em nós,  conseguiremos visualizar nossa identidade e assumi-la de forma consciente.

Que nos inspire as palavras do Padre J. Vechi[14], quando Reitor Maior. Segundo ele o lugar espiritual de nossa missão é o Oratório e, por isso, os jovens, com suas pobrezas, limites, desejos, sonhos, são também um dom para qualquer instituição salesiana. O retorno a eles nos fará recuperar a essência de nossa espiritualidade e prática pedagógica: a relação de amizade que cria reciprocidade e desejo de crescer.  Em nossos dias, uma instituição salesiana de ensino superior, o UNISAL, precisa ir muito além da estabilidade histórica e econômica, muito além da qualidade e excelência do ensino: é preciso fazer um êxodo mental e pedagógico através da relação, da presença e da participação na vida dos jovens dos nossos tempos.



[1] Ensaio escrito por ocasião dos 60 anos de presença  salesiana no ensino superior do Estado de São Paulo.

[2] Gioachino BARZAGHI, “Tre secoli di…”, o.c. PP. 258-262, LES/Milano, 1990.

[3]  Juan BOSCO. Memorias del Oratorio de San Francisco de Sales, [39], pág. 151, CSRFP, Quito, 2011

[4] Juan BOSCO. Memorias Del Oratorio, [42], pág. 161, CSRFP, Quito, 2011.

[5] Idem, Memorias Del Oratorio, [40], pág. 152, CSRFP, Quito, 2011.

[6] BOSCO, Teresio apud PERAZA, Fernando. Memorias del Oratorio de San Francico de Sales escritas por San Juan Bosco, pág, 155. CSR, Quito, 2011.

[7] Vechi, Juan apud Peraza, Fernando. Proceso Cronológico y Argumental de la vida de Don Bosco, CSRFP, Quito, 2012.

[8] Humberto ECO, Diario Romano L’Espresso el 15111/1981, pág. 105, tradución Josep Lluís Burguera.

[9] Fernando PERAZA. “Proceso Cronológico y Argumental de la vida de Don Bosco”, CSRFP, Quito, p. 85, 2012.

[10] Juan VECHI, “Ambientes para la pastoral juvenil”, CCS, Madrid, 1991, PP. 143-144; 151-152. BCSR. 271. 420,VEC.

[11] Luciano PANFILO, “Dalla scuola di arte e mestieri di Don Bosco all’attivitá di formazione profesionale” (1860-1915), Centro Nazionale Opere Salesiane, CNOS, LES/Milano, 1976, PP. 60-62. 271.443.PAN.

[12] Fernando PERAZA. “Proceso Cronológico y Argumental de la vida de Don Bosco”, CSRFP, Quito, p. 87, 2012.

[13] Fernado PERAZA. “Proceso Cronológico y Argumental de la vida de Don Bosco”, CSRFP, Quito, p. 88, 2012.

[14] Fernando PERAZA. Proceso Cronológico y Argumental de la vida de Don Bosco. CRSFP, Quito, pág. 78, 2012.

IES católicas: ações para fortalecer a identidade

Fábio José Garcia dos Reis

O livro “Enhancing religious identity: best practices from catholic campuses” é uma boa referência para  gestores de IES católicas que querem pensar em formas de fortalecer a identidade Institucional. Entre as possibilidades, aponto três perspectivas: a) cuidar do ambiente do institucional; b) fortalecer a percepção da IES, enquanto católica; c) qualificar o perfil do gestor.

A primeira dimensāo refere-se ao ambiente católico e à visão que o aluno tem da instituição e do mundo. Recomenda-se que a IES crie ambientes de convivência coletiva, de diálogo e de manifestação da fé. O ambiente físico é relevante, mas o estudante também precisa encontrar nos professores e gestores o respeito e a atitude de justiça.

Os temas da justiça social, ética, cidadania, voluntariado, inclusão e de outros assuntos alinhados com a vocação institucional precisam ser constantemente discutidos em uma IES católica. Esses temas podem ser abordados nos currículos de forma transversal ou nos eventos religiosos, nos momentos de formação, nos seminários e nas mensagens institucionais.

Os estudantes em uma IES católica necessitam ser estimulados a conhecer o mundo de uma forma crítica. A abertura para o diálogo com a diversidade é necessária, mas a orientação sobre os valores católicos é essencial.  A diversidade acadêmica é um valor inerente ao mundo da educação superior.  Cabe à IES estimular a reflexão sem deixar de proclamar a verdade e fortalecer o diálogo entre fé e razão.

A espiritualidade institucional precisa ser percebida e, para isso, a instituição tem que contar com um conjunto de pessoas especializadas na espiritualidade. A pastoral é um setor estratégico.

Gestores, professores e colaboradores são corresponsáveis pela institucionalização dos valores da IES. O compromisso com a existência de um ambiente católico é coletivo.

Recomenda-se que a dinâmica e o calendário da IES privilegiem a prática dos sacramentos. A agenda institucional, ao oferecer a oportunidade dos sacramentos, colabora com a evangelização e com a percepção da vocação da instituição.

Cabe à IES criar mecanismos de percepção de opinião dos alunos. A IES necessita conhecer o perfil de seus alunos e a opinião deles sobre a missão institucional. Será que o cotidiano da IES é compatível com sua missão e espiritualidade?

A segunda dimensão refere-se ao próprio significado da IES católica. O princípio de que toda IES é uma organização com estilo empresarial, de que precisa ser sustentável, eficiente e eficaz é correto, mas no caso de uma católica, a discussão vai além dessas perspectivas. As principais discussões são sobre evangelização, dignidade humana,  respeito,  formação integral e valores católicos.

A IES católica não pode abdicar de assumir-se como católica. Nesse sentido, não há problema de falar, por exemplo, sobre as raízes cristãs da humanidade, evangelização e compromisso com os valores cristãos. Assumir o perfil católico também significa olhar para os temas que são discutidos em sala de aula e estabelecer diretrizes. Devem-se privilegiar pesquisas alinhadas com o perfil Institucional.

Cabe à governança orientar os gestores a respeito da vocação institucional. É preciso coerência entre documentos e práticas. A governança tem um papel relevante de formação, orientação e cobrança de compromisso e resultados, em especial, por parte dos gestores.

O diálogo sobre a espiritualidade e identidade institucional entre reitoria, gestores, professores e colaboradores tem de ser constante. Como exigir das pessoas que estão no ambiente da IES ou da sociedade a percepção e incorporação dos valores institucionais, se os principais líderes não provocam a discussão e não a orientam? Seria interessante saber como a missão e a identidade institucional estão incorporadas nas pessoas que trabalham na instituição.

Sobre a dimensão da gestão é importante considerar o perfil e o compromisso do gestor. É consenso entre os estudiosos da educação superior católica que o perfil ideal dos principais líderes das IES católicas não é necessariamente o do melhor executivo. O líder tem que estar disposto a aprender sobre missão, identidade e espiritualidade.

O gestor deve trabalhar para a realização da vocação institucional e comprometer-se a formar pessoas conforme o perfil requerido pela IES. Nesse sentido, cabe ao gestor verificar se os projetos institucionais e a prática acadêmica são compatíveis com as diretrizes institucionais. O gestor também precisa ter a capacidade de orientar os professores e colaboradores para que assumam o perfil de educadores. São os educadores, os responsáveis pela orientação dos estudantes no que se refere às peculiaridades do mundo, às diversidades, aos desafios profissionais e aos perigos da perda de referência dos valores éticos, entre outros temas.

Em uma IES católica, o gestor é um servidor, por isso, tem um ministério. É seu ministério servir a uma causa e beneficiar a instituição e a sociedade. O líder de uma IES católica diferencia-se de um executivo, porque o seu olhar principal direciona-se para a institucionalização da missão e identidade e para a formação das pessoas.

Cabe aos líderes trabalharem intensamente pela qualidade acadêmica. O foco são os melhores parâmetros da educação superior. Não é compatível com a essência de uma IES católica a baixa qualidade. Oferecer bons serviços acadêmicos e administrativos significa uma atitude cristã de respeito para com os cidadãos.

Ser uma IES católica não significa ser uma instituição sem vínculos com a realidade ou com o mundo empreendedor e competitivo. Não há incompatibilidade entre valores católicos e capacidade de atuação no mercado educacional, desde que mantenha a sua essência.

Os principais gestores de uma IES católica não podem ter medo de exercer uma de suas principais funções que é atuar conforme a identidade e a espiritualidade institucional. Há bons exemplos de gestores que assumiram o compromisso com o perfil da IES e com os valores católicos.

A sociedade precisa de IES com valores. A competitividade e o avanço do mercado educacional abrem uma boa oportunidade para instituições sérias, comprometidas com a formação cidadã e profissional. Estamos em um bom momento para que as IES católicas intensifiquem os processos de cooperação e apresentem-se como alternativa real de formação integral de qualidade.

MITO, RITO E SIMBOLO NO ENSINO SUPERIOR: Pressupostos para uma avaliação Institucional

DILSON PASSOS JÚNIOR

 

Introdução

As Escolas de ensino superior confessionais nascem sob a égide de princípios e valores dos seus fundadores, sendo um espaço de interlocução com o mundo acadêmico. A principal fonte de renda dessas instituições é a mensalidade de seus alunos, base de sua sustentação. As leis de mercado, as exigências do governo, a competitividade, a necessidade de agregar ao seu corpo docente profissionais qualificados, não raras vezes faz com que princípios idealizados fiquem relegados a um segundo e até terceiro plano, frente aos problemas de sustentação de estruturas e pela incessante necessidade de atualização de pessoal frente a um mercado dinâmico e competitivo. Some-se a isso o crescimento destas instituições com o distanciamento entre os ideais elaborados pelos fundadores e o cotidiano acadêmico com professores de diversas procedências ideológicas, quando nem sempre a capacidade profissional está alinhada com os ideais destas fundações. A Missão Institucional acaba, em muitos casos, sendo desconhecida por educadores e, conseqüentemente, por educandos. Deve-se, ainda destacar, que pela própria natureza do mundo universitário, muitos dos docentes e coordenadores não comungam, e até mesmo se opõem ideologicamente às crenças e princípios da fundação e, coerentes com seus princípios, acabam por não sublinhar e assumir os aspectos relevantes dos princípios, quando não partem para contestá-los.

Para auferir o nível de fidelidade de uma instituição aos seus princípios fundacionais é necessário compreender como os ideais nascem, se institucionalizam e sofrem a erosão do tempo e das circunstâncias. Por que há nas instituições um descompasso entre os ideais da fundação e a pratica do cotidiano, gerando em alguns membros dessas comunidades desalento e descrença? Apresentaremos alguns pressupostos que nos permitem avaliar o nível de fidelidade das fundações aos ideais do fundador.

Da Experiência Fundante à Institucionalização: Mito, Rito e Símbolo

O homem se constrói a partir de experiências. Prevalece o conceito aristotélico de que nada está na inteligência sem que por primeiro não tenha passado pelos sentidos. O experimentar faz parte intrínseca da vida, sendo um patrimônio pessoal na construção da personalidade. Em geral, as experiências vividas esgotam-se na temporalidade da própria vida de cada indivíduo. Há experiências, porém, que transcendem o individuo e são apropriadas por outras pessoas que vêm nelas algo de singular e extraordinário e, ainda que vivenciada por outrem, possuem um lastro de sabedoria que passa a ser para muitos um referencial de vida. Essa experiência pessoal de alguém, quando transferida ou apropriada por outras pessoas, denominaremos de experiência fundante. Tal experiência de uma pessoa, assumida por outras, dá ao individuo que a vivenciou a imediata ou crescente consciência de que é “mestre”, “guia” e “fundador” e a “consciência de que tem uma missão” a cumprir. Tal experiência vai aos poucos se desmaterializando e assumindo um halo místico. A experiência fundante, ao perder sua materialidade, se torna um princípio, uma doutrina e uma mística. O fundador atrai discípulos, ou, discípulos mais fervorosos apontam o fundador como exemplo a ser seguido.

Os discípulos das primeiras horas são co-fundadores que avalizam a experiência do fundador como referencial e palavra final. Sua morte qualifica esses discípulos que gozam de autoridade porque conviveram com o mestre sendo reconhecidos como intérpretes qualificados. Com o tempo a experiência fundande se encaminha para institucionalização que procura organizar e perpetuar o carisma do fundador e dos primeiros discípulos. A imagem, a vida e a ações do fundador são perenizadas. Este caminho se realiza através de três elementos interligados: o Mito, o Rito e o Símbolo.

O Mito é a narração da vida, dos ditos e feitos do fundador e seus primeiros discípulos. Não é, porém, uma narração feita uma única vez como numa comunicação, mas é sempre narrada, porque aquele evento fundacional do passado torna-se sempre presente na comunidade que o assume. Os iniciados ouvem com unção muitas vezes a história de como tudo começou. Esse resgate tem não só a função de memorial, mas de entendimento do “agora” da Instituição. Perder esse referencial histórico é perder a própria identidade, pois, os seguidores devem entender que são continuadores do fundador. O mito é um fato do passado que se atualiza pelo Rito.

O Rito é a atualização do Mito que “indo” ao passado, atualiza a experiência fundante tornando-a presente aqui e agora no hoje, sendo, portanto, não só evocativo, mas também celebrativo. É a atualização do ontem no hoje, quando “nós” somos a continuação da mesma história. O cerimonial integra e dá unidade ao passado e ao presente quando não somos observadores, mas protagonistas da história. Nas celebrações religiosas, à guisa de exemplo, a divindade sai de sua transcendência e está “aqui” no rito interagindo com seus crentes ouvindo-os e atendendo-os. Em Instituições não religiosas o cerimonial também diz a mesma coisa: os sonhos dos fundadores não ficaram no passado: somos este sonho tornado realidade, não havendo entre o fundador e seus discípulos o vácuo do tempo. O ontem é o hoje em nós. Daí a necessidade de uso de roupas e insígnias que indiquem que o membro da comunidade transcende a sua própria individualidade.

O Símbolo é o que nos faz remontar e lembrar a experiência do fundador por sinais. O vestir-se e o envolver-se de símbolos representa conectar o hoje com o ontem. O paramentar-se, não só no sentido religioso, significa dar identidade ao Rito indicando a fonte de onde se vem. O símbolo é um referencial ao Mito inicial. Mesmo as construções são sinais de uma determinada Instituição que procura se impor pela grandeza, esplendor e majestade para assinalar o que representam.

O Ideal do fundador, nascido naturalmente ou forjado por seus discípulos, se visualiza no Mito, no Rito e no Símbolo que sintetizam a experiência fundante. Essa experiência precisa institucionalizar-se para organizar o projeto inicial.  O impulso inicial vai sendo ordenado por regras, normas, princípios e procedimentos para garantir como a coisa deve ser. Se essa fundação é bem sucedida isso se materializa no reconhecimento social, garantia de status e poder. Os seus gestores têm como missão ser intérpretes dos ideais fundacionais como guardiães zelosos em manterem a “chama sagrada” da experiência fundante.

Uma Instituição que se consolida é um atrativo para novos membros, ora por uma clara opção pelos ideais fundacionais, ora pela procura de status, poder ou remuneração. Cria-se tensão entre as dimensões carismática e institucional, entre os ideais do fundador e o cotidiano pouco romântico com sua materialidade prosaica: contas, captação de recursos, remunerações, competições de mercado, captação de clientes, direitos e lutas sindicais, contratação de funcionários alinhados com os ideais do fundador e a demissão dos menos integrados profissional ou ideologicamente.

Acontece se ver o retrato de fundadores fixados em paredes de vestutas fundações, antes venerados e amados, hoje, rostos anônimos a assombrar como fantasmas do passado com seus ternos antigos, às novas gerações sedentas de modernidade e desejosas de sepultarem nos porões dos prédios esses quadros velhos. Assim como esses retratos, objeto de veneração no passado, também os mitos, ritos e símbolos podem perder sua atualidade apesar de “pendurados” na Instituição. Aqui está diagnosticada a crise profunda de uma fundação onde o Mito deve ser narrado, o Rito deve ser celebrado e o Símbolo deve ser mostrado por funcionários sem paixão, sem emoção, sem adesão afetiva, sem identificar-se com eles. Parecem velhos funcionários de velhas instituições apresentando com voz pastosa e sem brilho nos olhos os “ideais” de fundações das quais recebem o sustento e através das quais esperam com ansiedade a aposentadoria. O Mito fundacional torna-se mera mitologia, estórias do passado; o Rito torna-se ritualismo, suportado com olhares constantes ao relógio conscientes de que está demorando muito e se tem coisa importante a fazer. E os Símbolos não simbolizam mais, sendo relegados às gavetas ou envergados em cerimônias com tédio ou, tornam-se ainda enfeites sem seu significado inicial. Essas coisas só são suportadas porque através delas se tem status ou remuneração.

A erosão dos paradigmas fundacionais e institucionais faz com que se mantenha um verniz superficial que apenas se refere ao fundador e à sua experiência fundante. Os discursos tendem a ser vazios e as ações tornam-se pragmáticas até no fingir que se adere aos critérios fundacionais quando se vive, efetivamente, atitudes diferentes das propostas da Instituição. O Mito não narra mais, o Rito não celebra mais e o Símbolo não simboliza mais. O que sobrevive é o simulacro. Esta Instituição está em crise, pois, há uma efetiva ruptura entre o sonhado e vivido. E ainda que sobrevivam em seu comando poucas pessoas apaixonadas pela experiência inicial, efetivamente, porém, não há mais canais entre o impulso inicial repleto de paixão e os destinatários. Numa escola, para concretizarmos essas afirmações, há educadores que não crêem nas propostas dos mantenedores e alunos que não recebem os influxos desta experiência fundante. O destino desta Instituição será ou, a radical presença de vigorosos e violentos reformadores que busquem retomar o espírito da fundação, ou a ruptura com os paradigmas fundacionais substituindo-os por outros ou, ainda, o melancólico encerramento de suas atividades.

 

Considerações finais

Seria destino inexorável de que todas as experiências fundantes viriam a viver um período de institucionalização, de apogeu e decadência? Os ideais e princípios educacionais sofreriam erosão inevitável do tempo tornando-se arcaicos e ultrapassados? Seriam, na história, alguns valores apenas sazonais? Teria sentido uma Instituição de Ensino Superior possuir princípios pétreos? São questões que perpassam o suceder histórico e, acima de tudo, o filosófico. Essas mesmas questões deveriam ser equalizadas para uma interpretação filosófica: Existiria o perene? Ou prevaleceria a intuição do velho Heráclito que via no permanente fluir e na mudança em si aquilo que era o mais certo? Certos valores são de momento ou perenes? Os valores fundantes de uma Instituição de ensino não perpassariam o tecido acadêmico por incompetência de seus gestores ou porque seria já um produto fora de linha e, portanto, não interessante aos consumidores? Seriam os gestores de uma fundação como vendedores de loterias que gritam a todos os transeuntes que o “bilhete premiado” está em suas mãos, mas o vendem por um punhado de moedas tidas, então, por mais valiosas?

Por que experiências fundantes perdem seu vigor e exuberância? O Iluminismo, o Positivismo, o Capitalismo, o Marxismo foram totens que se erigiram grandiosos nas planícies da história e que conheceram a erosão do tempo. Será que Mito, Rito e Símbolo das instituições educacionais sofreriam a inexorável erosão da descrença: ser um mito que não narra mais, ser um rito que não celebra mais, ser um símbolo que não simboliza mais. São questões que, se respondidas, independente de qual seja a resposta, darão um norte no governo nas Instituições de Ensino Superior. Os ideais dos fundadores nas Instituições de Ensino Superior sofreriam crises conjunturais ou estruturais? São questões que necessitam de respostas para que o ideário e a missão das universidades seja uma realidade exeqüível e não uma formalidade nos planos das instituições.

UNIVERSIDADE: do Coração da Igreja aos desafios contemporâneos

Lino Rampazzo

O contato do cristianismo com o mundo da cultura sempre suscitou na Igreja o problema de integrar ciência e fé. Por isso, desde as origens, a Igreja foi promotora do saber, das ciências, das artes, da cultura. Já no século II d.C., apareceram sob o seu impulso centros de cultura cristã, os chamados “didascalia”, entre os quais sobressaíram os de Alexandria, no Egito, de Esmirna e de Edessa, na Ásia Menor, e de Roma.

Um momento importante na história da cultura universal – sem falar da contribuição dada pelas abadias beneditinas, na Idade Média – foi a fundação, a partir do século XII, das Universidades de Bolonha, Pádua, Paris, Oxford, Salamanca etc., promovida pela Igreja.

Com a presença marcante da Igreja na atividade educacional nos séculos XII‑XIV, era normal que as universidades tivessem procurado uma integração, no saber, entre a ciência e a fé.

A época da Renascença e do Iluminismo marcam a crise deste modelo: o  famoso Institut Catholique de Paris lembra, pelo termo, o fato que, por muito tempo na Franca uma instituição católica não podia receber o título de “Universidade”.

Assim, quando os Estados tomaram como sua a missão de fundar universidades, a Igreja continuou promovendo a ciência e a cultura em centros acadêmicos próprios.  E no século XIX começaram a aparecer as “Universidades Católicas”.

Historicamente, a primeira Universidade Católica foi fundada em Lovaina, na Bélgica, em 1834.

Mas vamos à origem específica das Universidades.

No século XII, as escolas monásticas e catedrais, com o auge dos estudos filosóficos e teológicos, experimentaram um extraordinário impulso, ao ponto delas se transformarem em institutos de ensino mais elevado. Para esse impulso, contribuiu, de maneira significativa, o encontro entre Oriente e Ocidente, ocorrido com o movimento das Cruzadas.

Na organização gremial da Idade Média, o termo “universitas” (= universidade) indicava uma “classe social”, ou uma “profissão.

As novas instituições pedagógicas de nível superior, que se desenvolveram a partir do século XII, receberam inicialmente o nome de “studium generale” (= estudo geral): não no sentido que incluíssem todos os ramos do saber, mas porque, a diferença dos “estudos locais”, eram dirigidas para todos os estudantes, sem distinção de raça e nacionalidade.

Com o tempo, o nome “studium generale” foi designado para indicar o conjunto das ciências, o estudo geral, ou universal do saber. Só mais tarde, pelo fim do século XIV, o nome de  “studium generale” foi substituído por “universitas

A primeira universidade européia foi a escola de medicina de Salerno (Itália). A ela, seguiu-se, ainda na Itália, a de Bolonha, dedicada especialmente ao estudo do direito a fundada, como a de Salerno, no século XII.

Mas nenhuma foi tão importante, para a cultura ocidental, como a de Paris, surgida da escola da catedral de “Notre Dame”, no século XIII, e que modelou as demais universidades européias. Seguiram-se a ela, no mesmo século, as de Oxford e Salamanca e, mais tarde, muitas outras, até que pelo fim do século XV, a Europa contava umas oitenta.

A forma de nascimento das universidades é muito variada. Umas vêm pela a autoridade e atração de um mestre (Paris, Salerno, Oxford); outras por fundação do Papa (Roma, Pisa e Montpellier); outras por edito do príncipe (Salamanca e Nápoles); e outras, o que é mais freqüente, são criadas por ambos os poderes (Praga e Viena).

Em geral, umas e outras, passando algum tempo, recebiam privilégios dos papas e dos reis. Entre esses privilégios figuravam os de isenção de impostos, o de jurisdição interna para julgar os seus membros e (o mais importante) o direito de conceder graus. O primeiro deles era o “bacharel”, uma espécie de auxiliar de ensino; o segundo, o da “licenciatura”, que capacitava para ensinar; e o terceiro era o de “mestre” ou “doutor”.

O método da pedagogia universitária compreendia três momentos: “lectio” (=lição), “quaestio” (=repetição) e “disputatio” (=discussão).

As universidades se dividiam em “nationes” (= nações), que agrupavam os estudantes de diversos países, os quais, segundo a nacionalidade, costumavam hospedar-se na mesma casa (“hospitia”) e tinham organização autônoma.

Outra divisão era a das “faculdades”. A palavra “faculdade, em seu sentido de corpo de professores e estudantes consagrados ao ensino e estudo de um ramo do conhecimento humano, originalmente concedia o direito (em latim “facultas”) que o graduado tinha de ensinar.

A universidade plenamente integrada compreendia quatro faculdades: teologia, medicina, direito e artes. O nome desta última provinha da expressão “artes liberais” (gramática, retórica, dialética,aritmética, geometria, música e astronomia) e se referia às disciplinas de estudo desta faculdade; daí possuírem o caráter de transmitir uma certa educação não profissional, e de servirem de introdução às outras três de caráter profissional e superior.

A presença da filosofia e da teologia (nas “artes”) dentro da estrutura universitária era sinal da sociedade medieval, na qual a presença da Igreja era marcante e se procurava um integração entre a ciência e a fé.

Pode-se, pois, entender o “título” da Constituição Apostólica Ex corde Ecclesiae, cconsiderada A Magna Charta  das universidades católicas (1990).

Como todos os documentos oficiais da Igreja, este também tem por título as primeiras palavras do texto latino: Ex corde ecclesiae, quer dizer, (nascida) do coração da Igreja. Pronuncia-se “eks corde ecclésie”.

Concluímos, então, lendo o início do primeiro número deste documento:

“Nascida do coração da Igreja, a universidade católica insere-se no sulco da tradição que remonta à própria origem da universidade como instituição, e revelou-se sempre um centro incomparável de criatividade e de irradiação do saber para o bem da humanidade. Por sua vocação, a universidade se consagra à investigação, ao ensino e à formação dos estudantes livremente unidos com seus mestres no mesmo amor do saber. Ela compartilha, com todas as outras universidades, aquela ‘alegria a respeito da verdade’, tão a gosto de Santo Agostinho, isto é, a alegria de procurar a verdade, de descobri-la e de comunicá-la, em todos os campos do conhecimento. Sua tarefa privilegiada é unificar existencialmente, no trabalho intelectual, duas ordens de realidade que, não raro, tendem a se opor, como se fossem antitéticas: a investigação da verdade e a certeza de conhecer, já, a fonte da verdade”.

UNISAL – Uma Universidade Católica

Grupo Fé e Razão

 

O que caracteriza a história do UNISAL, desde sua fundação em 1952, como Faculdade Salesiana de Filosofia Ciências e Letras, é a sua inserção social em um contexto cristão-católico de formação integral dos jovens para uma vida cidadã, conforme os valores evangélicos. Esta sua vocação originária é parte integrante e fundamental do carisma salesiano já expressamente declarada por Dom Bosco na síntese de todo o seu projeto de vida: educar e “formar bons cristãos e honestos cidadãos”. Era a resposta e a antecipação cristã, em estilo salesiano, ao processo de secularização que começava a invadir o mundo novecentista, período inicial do movimento industrial do chamado mundo contemporâneo.

Uma das vocações mais significativas das Universidades presente e descrita no documento de João Paulo II, Ex Corde Ecclesiae (ECE) de 1990 (“Do coração da Igreja), é ser ela “um centro incomparável de criatividade e de irradiação do saber para o bem da humanidade” (N. 1), encontrando eco à proposta salesiana de educar e evangelizar a juventude para que seja, fundamentalmente, “sal na terra e luz do mundo” (Mateus 5, 13-14)

Ao responder aos apelos originários da Universidade, é preciso começar a pensar em atender aos desafios de um universo aberto, cada vez mais complexo, dinâmico e globalizado. Por isso, há urgência e necessidade, como afirma o documento, de pensar nos consagrados princípios da dinâmica do saber: “procurar a verdade, descobri-la e comunicá-la” (ECE, N. 1). Esta trilogia, centrada na verdade, mostra que, no fundo, a vocação originária passa a transitar como uma exigência que ultrapassou os tempos: é preciso centrar a investigação na sua identidade norteadora que é, não só um apelo, mas sua principal razão de ser, a verdade. Uma verdade não presa a um dogmatismo, mas capaz de responder às exigências do tempo moderno, com seu dinamismo pautado na liberdade e na possibilidade de aproximar, pelo diálogo, os diversos segmentos científicos, filosóficos e religiosos.

Este parece ser o desafio a que somos chamados a viver como educadores em um tempo diverso e múltiplo que exige uma resposta de esperança solidificada no caminho dialógico da fé.  Acreditar, como declara o documento, que “não existe senão uma cultura: a do homem, que provém do homem e é para o homem (…) esta entendida sempre à luz que a Revelação lhe dá” (ECE, N. 3). Sem dúvida, ao se posicionar favoravelmente à Universidade, a Igreja reafirma a sua vocação autônoma na busca pela verdade e, ao mesmo tempo, aponta o que a distingue dos outros centros de saber: “A Universidade Católica distingue-se pela sua livre investigação de toda a verdade acerca da natureza, do homem e de Deus” (ECE, N. 4).

Ao perceber esta síntese que a identifica enquanto ser no mundo, cabe à universidade, em sua pluralidade de discursos e procedimentos próprios de cada saber, estabelecer este diálogo profundo com a fé. Perceber que no mundo fluido, proporcionado pelos avanços tecnológicos, o homem se tornou multifacetado e, portanto, disperso, longe de sozinho encontrar sentido de vida: “A Universidade Católica é chamada dum modo especial a responder a esta exigência: a sua inspiração cristã consente-lhe incluir a dimensão moral, espiritual e religiosa na sua investigação e avaliar as conquistas da ciência e da técnica na perspectiva da totalidade da pessoa humana” (ECE, N. 7).

O documento exorta à renovação das práticas e insiste no diálogo plural entre os seus membros, a sociedade em seu entorno e na aproximação com o mundo juvenil, como um caminho salutar para encontrar sentido e testemunhar este valor como resposta a este universo aberto. Para isto é necessário, antes de tudo, que a Universidade declare sua natureza, enquanto promotora do desenvolvimento e da dignidade humana pautada nos princípios rigorosos da investigação, ensino e responsabilidade social.

Sua presença de inspiração cristã exige uma reflexão constante e uma fidelidade à mensagem cristã, como norte e demonstração visível de sua identidade institucional; por isso, a necessidade de se pensar o quanto a temos clara em “nossos ideais, atitudes e princípios católicos” (ECE, N. 14) demonstrados em nossas atividades universitárias nas o “cristianismo está presente dum modo vital” (ECE, N. 14).

Um dos grandes desafios a ser perseguido, segundo o documento, é pensar no dinamismo interdisciplinar no qual as várias disciplinas sejam levadas  ao diálogo entre elas com a finalidade de enriquecimento recíproco (cf. ECE, N. 15), de modo a acontecer “integração do conhecimento, diálogo entre fé e razão, uma preocupação ética em uma perspectiva teológica” (ECE, N. 15).

Ao perseguir tal ideal, estaremos, sem dúvida, priorizando a ética sobre a técnica e respondendo aos princípios basilares de uma Universidade Católica em que “a causa do homem só será servida se o conhecimento estiver unido à consciência” (ECE, N. 18).

A busca por esta interdisciplinaridade se torna, em uma Universidade Católica, uma urgência, principalmente por perceber em seu dinamismo e em sua identidade uma transversalidade necessária a toda e qualquer área do saber: o constante diálogo entre fé e razão que, como afirmamos, não é divergente, mas complementar.

Esse caminho em busca de uma identidade autêntica e diferenciadora de qualquer outro centro do saber, só tem sentido se buscarmos construir entre nós uma comunidade humana autêntica animada pelo espírito de Cristo na qual os valores possam animar e promover a unidade que possa contribuir na busca pelo “espírito de liberdade e de caridade; e se caracteriza pelo respeito recíproco, pelo diálogo sincero, pela defesa dos direitos de cada um” (ECE, N. 21). É preciso, pois, que os sinais visíveis da fé cristã-católica se tornem cada vez mais presentes no contexto universitário, abrindo espaço para sua manifestação simbólica e significativa que a identifica e diferencia de outras Universidades.

É importante, portanto, que sejamos competentes em nossa missão educativa e capazes de, por meio dos conteúdos, objetivos e métodos, promover uma visão de mundo que testemunhe a nossa fé e uma autêntica vida cristã. Com isso, estimular nossos alunos “a perseguir uma educação que harmonize a excelência do desenvolvimento humanístico e cultural com a formação profissional especializada”, cultivando a formação de um “juízo pessoal, religioso, moral e social” (ECE, N. 23).

O UNISAL entende e persegue estes valores e, como comunidade educativa (gestores, docentes e colaboradores), deve participar, efetivamente, com seu testemunho pessoal e dedicação na gestão do serviço prestado aos que procuram à Universidade, fazendo-os perceber esta identidade católica.

Inserida na comunidade cristã-católica, o UNISAL reconhece a importante colaboração prestada por todos de seu ambiente educativo na condução do processo de formação dos jovens e reafirma a sua vocação ecumênica ratificando que “colegas pertencentes a outras Igrejas, a outras Comunidades eclesiais e religiões, e bem assim colegas que não professam nenhum credo religioso (…) contribuem com a sua formação e experiência para o progresso das diversas disciplinas acadêmicas” (ECE, N. 26).

No entanto, deixa claro que espera de todos que participem da vida universitária que reconheçam a sua identidade institucional, ou seja, a vocação cristã e católica. Atento a isso, o UNISAL, em conformidade com o documento Ex Corde Ecclesiae, acredita que: “Os membros católicos (…) são também chamados a uma fidelidade pessoal à Igreja (…); dos membros não católicos espera-se o respeito do caráter católico da instituição” (ECE, N. 27). Para atingir tal objetivo é necessário que, respeitados os progressos da ciência e “a liberdade acadêmica de cada um dos estudiosos” (ECE, N. 29), se atenham ao diálogo constante com a fé, tendo sempre em vista que “a missão fundamental de uma Universidade é a procura contínua da verdade, a conservação e a comunicação do saber para o bem da sociedade” (ECE, N. 30).

Uma vez inserida na sociedade, o UNISAL, como uma Instituição de Ensino Superior Católica, deve ter a ousadia de enfrentar os problemas e dilemas contemporâneos, principalmente aqueles que envolvem a defesa da vida, justiça e cidadania e, se “for necessário, a Universidade Católica deverá ter a coragem de proclamar verdades incômodas, verdades que não lisonjeiam a opinião pública, mas que no entanto são necessárias para salvaguardar o autêntico bem da sociedade” (ECE, N. 32).

Uma vez declarada sua intenção, é preciso salientar que o UNISAL deve assumir o compromisso baseado em princípios éticos religiosos que dão pleno significado à vida humana. Isso posto, fica evidente que a promoção da justiça social passa a ser um caminho educativo de formação de uma juventude capaz de enfrentar os desafios da busca por uma sociedade mais humana e justa. Esta necessidade passa a ser uma importante fonte de pesquisa e investigação que deve suscitar da comunidade aprofundamento e investimentos comuns em busca de uma maior e melhor compreensão da realidade social, para que a Universidade possa se constituir “no interlocutor privilegiado” (ECE, N. 37) de serviço à sociedade.

Aliado a todo este manancial de serviços, que fortalece a identidade do UNISAL como parte integrante das Universidades Católicas, é também de igual importância e revelador do carisma salesiano o papel desempenhado pela pastoral da universidade como animadora e provocadora de uma comunidade educativa capaz de, sensibilizada à causa evangelizadora,  ressignificar “os estudos acadêmicos e atividade para-acadêmicas com os princípios religiosos e morais, integrando assim a vida com a fé” (ECE, N. 38).

É preciso que os momentos de fé e reflexão ocupem seu espaço na vida universitária como uma oportunidade de “assimilar na sua vida a doutrina e a prática católica” (ECE, N. 39). Por ser um centro de excelência do saber, deve a Universidade estar atenta e aberta às diversidades culturais presentes em seu meio; daí a necessidade de um diálogo franco e aberto com esse mundo plural. É neste contexto que se situa a atuação da pastoral da universidade.

A vocação universitária católica tem seu eixo na formação integral das pessoas e dos povos; por isso mesmo se faz necessário perceber as várias linguagens do mundo contemporâneo e estar “aberta a toda a experiência humana, disposta ao diálogo e à aprendizagem de qualquer cultura” (ECE, N. 43). Ao investigar e aprofundar seus conhecimentos, ela desenvolve os meios para melhor difundir os valores da fé, percebendo que o “Evangelho transcende todas as culturas” (ECE, N. 44)

Enfim, o UNISAL se faz presente como uma Instituição de Ensino Superior Católica capaz de declarar e assumir a sua vocação acadêmica de um centro de excelência do saber e, ao mesmo tempo, revelador de seu carisma de fé, em estilo salesiano. Tal identidade se encontra nos valores pregados e vividos no coração da Igreja, cujas finalidades estão centradas, principalmente por sua:

  1. “inspiração cristã, não só dos indivíduos, mas também da comunidade universitária enquanto tal;
  2. reflexão incessante, à luz da fé católica, sobre o tesouro crescente do conhecimento humano, ao qual procura dar um contributo mediante as próprias investigações;
  3. fidelidade à mensagem cristã tal como é apresentada pela Igreja;
  4. dedicação institucional ao serviço do povo de Deus e da família humana no seu itinerário rumo àquele objetivo transcendente que dá significado à vida” (ECE, N. 13).
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